A Clinvet, clínica veterinária responsável pelo canil de Imbituba, enviou sua resposta. Junto vieram fotos do canil. Parece que a matéria serviu ao menos para fossem feitos cubículos para os cães tomarem sol do lado de fora do abrigo. Vou conferir essas reformas ainda nessa semana.
Espero que as motivações para a reforma não seja apenas políticas, já que só foi feita agora, tão perto das eleições. Espero que a educação e esterilização em massa, que não são fáceis de mostrar em campanhas políticas, também estejam sendo feitos.
Se alguém precisar do áudio da entrevista ou de outras provas e pareceres para confirmar as informações da matéria, é só pedir.
Espero que em Imbituba as pessoas trabalhem pela causa animal e não pelo lucro em políticas públicas.
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quinta-feira, 11 de setembro de 2008
quarta-feira, 16 de julho de 2008
Abrigo dos horrores - versão menor
Essa é a versão resumida da reportagem que denuncia o confinamento em más condições de animais em Imbituba, SC, além da negligência dos responsáveis pelo projeto que se negam a fazer campanhas de esterilização e educação
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Abrigo dos horrores
Programa de controle de animais em Imbituba fracassa por recolher animais e tentar esconder o problema da população
O ambiente é úmido, escuro e fede a urina, mesmo depois de ter sido limpo. As condições insalubres do abrigo de animais de Imbituba, litoral sul de Santa Catarina, se agravaram de um ano para cá. Dos 110 animais poucos estão em condições que podemos chamar de saudáveis. Não que falte comida ou assistência veterinária, é que na nova política do projeto só os animais em más condições são recolhidos. A mudança evidencia o fracasso do projeto que ao invés de diminuir, aumentou o número de cães nas ruas pelo abandono. A precariedade do abrigo é tanta que o veterinário responsável pelo programa de controle de cães e gatos nas ruas, Édio Souza de Oliveira, proíbe imagens.
- Ele não está do jeito que eu gostaria, justifica.
Paulo Botafogo, presidente da Ong Fundo Vira-lata de Garopaba, visitou o lugar:
- O abrigo é tudo menos um abrigo. É um lugar frio e triste, com cães amontoados deitados no cimento frio, desesperados e apáticos.
Cães trancafiados em celas minúsculas, sem sol, sem espaço, é resultado de uma política que tenta esconder o problema da população. O serviço terceirizado da Clínica Veterinária Clinvet pode até tentar, mas não é capaz de cuidar do projeto sozinha. Tirar os animais das vistas da população não é uma medida eficaz: o problema parece resolvido, mas foi só mascarado. O próprio veterinário admite:
- Pensei que fosse limpar as ruas de Imbituba em um ano, mas pelo contrário, aumentou o número de cães na rua, cada vez as pessoas soltam mais.
O repasse mensal é de R$ 5.500. O custo de alimentação, medicamentos, funcionários, transporte e manutenção da área onde está o abrigo, geralmente ultrapassa esse valor, segundo o veterinário. De fato manter um abrigo de animais não é barato e não resolve o problema da superpopulação animal. Por esse motivo, as organizações de proteção animal aconselham a não recolher. Paulo Botafogo foi um dos protetores que tentou alertar Édio.
- Recolher e recolher seria uma coisa sem fim, desperdiçando o dinheiro público com um processo sem resultados práticos e que só produz sofrimento. Enquanto as campanhas de educação e de esterilização em massa de cães e gatos não forem feitas, essas fábricas de tristeza só refletem nossa incapacidade de lidar com a vida no planeta.
Édio é bem intencionado, mas lhe falta a experiência que os protetores tentaram e ainda tentam passar. Ele não quer ouvir.
- Não comento sobre Garopaba.
Em Garopaba o controle de animais é feito pela Ong Fundo Vira-Lata que trabalha com esterilização a baixo custo. Em seis anos de existência, a Ong sozinha tirou mais animais das ruas com esterilização do que qualquer canil que se tem notícia nessa região. A Organização Mundial de Saúde, OMS, recomenda a esterilização como a única forma de atacar eficazmente o problema da superpopulação de animais nas ruas. Apesar disso, Édio não concorda em oferecer esterilização a baixo custo. Ele acha que seria antiético com a clínica dele e do outro veterinário da cidade cobrar mais barato pela cirurgia de esterilização. Na ética financeira, talvez. Talvez ele não saiba que a maioria das pessoas que trabalham pela causa animal não ganham um tostão, pelo contrário, usam o próprio dinheiro e se enchem de dívidas por não conseguir negar ajuda aos seres que sofrem. Há protetores em Imbituba que não levam mais seus animais em clínicas daqui. Quando precisam de castração, enchem um carro e vão a Garopaba.
Desde o início do projeto Édio promete que vai construir um novo abrigo, orçado em 30 mil reais. O município não tem planos de bancar a construção. Se o abrigo for construído por Édio, será no terreno dele, com o dinheiro dele, ou seja, será particular. E não se pode basear um programa público de controle de animais em um canil particular. Talvez ele planeje tocar o canil sozinho caso o poder público abandone o projeto, o que pode ocorrer, mas parece que ele está contando com a boa vontade eterna dos políticos. Outro problema de um canil particular é que ele tira da população a responsabilidade e a possibilidade de vigiar o que está sendo feito com os animais e com o dinheiro público.
O abrigo
Quando o projeto começou, em outubro de 2006, os responsáveis insistiam em recolher todo animal que vagasse pelas ruas, achando que dessa forma acabariam com o problema. Não houve preocupação em construir um abrigo. Foi cedido um dos prédios abandonados do ICC, que, toscamente adaptado, logo começou a receber animais.
Os canis são todos na parte interna, sem acesso ao ar livre. No salão central, são dez baias, de dois por três metros, onde fica a maior parte dos cães. Sem luz solar direta, o piso está sempre molhado. São até oito cães em cada baia que tem um estrado de madeira onde eles se amontoam para dormir. Os latidos ensurdecedores ecoam nas paredes cobertas de azulejos brancos. As janelas altas não são suficientes para ventilar o forte odor de urina. Como não há pátio, os tratadores colocam coleiras e correntes nos cães e os levam em grupos para tomar sol do lado de fora do prédio. Além de ser trabalhoso, isso às vezes rende problemas. Em uma das vezes que visitei o canil, um dos tratadores misturou os cães ao levá-los para o sol e colocou-os em baias trocadas. Os outros funcionários levaram a tarde toda para corrigir a confusão.
Qualquer coisa diferente gera algazarra entre os moradores do pavilhão central. Quando algum deles foge, os latidos dos que ficam presos é ensurdecedor. De vez em quando dá briga e o tratador tem de ir separar. O último que saiu separava os animais a pauladas. Não há voluntários, os responsáveis pelo projeto não aceitam ajuda.
No pavilhão central alguns cães latem e se jogam contra as grades desesperados, mendigando atenção. Outros permanecem deitados, com ar depressivo, acompanhando de longe os visitantes.
Do lado oposto às baias, algumas salas também receberam portões de madeira, já reforçadas com tela devido às mordidas dos mais aflitos. Na última sala do pavilhão central, fica a ‘solitária’, onde estão os cães agressivos. Presos em pequenas celas de um metro por um e meio, eles raramente saem para tomar sol.
O mais veterano dos cães na solitária é um Pitbul amarelo que está preso há quatro meses. Depressivo, não esboça reação, nem quando chamado. Parece ter perdido a noção de que é um cachorro, num lugar onde só vê paredes, acabou se confundindo com uma. Outro que está na solitária é um vira-lata preto enorme. Ele olha desconfiado pelas frestas da porta e late raivoso como quem cobra a presença do advogado.
O tratador mostra dois cães que tiveram os olhos perfurados na rua. Um deles ainda não enxerga, mas vem cambaleando até o portão de sua baia atraído pelas vozes humanas. Mesmo cegos, os cães continuam amigos do homem.
O outro já recuperou parte da visão. É um cãozinho peludo minúsculo, daqueles de colo. Deve ter sido abandonado por uma dessas madames que os compram para enfeitar o colo e quando percebem que eles fazem cocô, descartam-nos como a uma roupa fora de moda. É uma noção invertida de valores que se afirma no comércio de animais e na proliferação das lojas pet shops. A vida do animal é reduzida a um valor estético tal qual um bicho de pelúcia. No fim, uma parte desses cães-objetos vai parar nas ruas, onde procriam, gerando mais animais errantes, sofredores de um sistema onde a vida tem valor de mercado e até desconto para os mestiços.
A legislação brasileira é uma das mais avançadas do mundo em proteção animal. A lei de proteção aos animais existe desde 1934 - Decreto-lei nº 24645 -, e foi complementada com a Lei 9.605 de 1998 - Lei dos Crimes Ambientais. Pelo menos a Lei Municipal nº 3.223/06, sancionada em 12 de setembro de 2006, garante que os animais saudáveis não podem ser mortos como forma de controle populacional. Os cães e gatos recolhidos ficam no abrigo até que sejam adotados ou morram naturalmente.
No segundo andar fica o gatil. São seis gatos presos em um antigo banheiro com os mictórios ainda na parede. Eles ficam deitados em meio às fezes e urina misturados na areia espalhada pelo chão. Gatos são bichos muito higiênicos, aprendem sozinhos a usar a caixinha de areia. Normalmente não deitam na areia que usam para fazer cocô. Mas no lugar não há outro lugar para deitar além do piso frio de cerâmica. A areia é trocada a cada 15 dias. Não chega a ter mau cheiro, mas um cocô feito fora da areia denuncia que nem os gatos consideram mais a areia apropriada para isso. Além disso o contato com as fezes de outros animais, pode transmitir doenças, como a toxoplasmose, e verminoses. O gatil é um retrato do improviso do abrigo.
Culpar a população tornou-se um hábito
Édio atribui os problemas do programa à população. Sabe que para que o povo participe, deveria haver educação, mas admite que esse trabalho não existe. Édio diz que no projeto redigido por ele há a participação da secretaria de educação, para o envolvimento das escolas.
-Talvez seja falha minha por não cobrar, não ter levado o projeto e dito o que precisa ser feito.
Talvez seja mesmo. Mas, a secretaria de educação fica a trezentos metros do abrigo de animais. Impossível não ouvir os latidos desesperados dessa distância. Se nem como cidadã, a secretária de educação, Leda Pamato de Souza, se interessou pelo abrigo, difícil esperar uma iniciativa mais ousada que um seco ‘não é comigo’. Ela afirma não poder fazer nada, pois não foi solicitada.
Falha mesmo está em querer resolver o problema acreditando na auto-suficiência do serviço terceirizado.
- O povo tem de fazer parte da solução - deduz a coordenadora da Vigilância Sanitária Sandra Mara Leal. Ela atribui o aumento de animais na rua à falta de consciência da população, não só da cidade, mas dos municípios vizinhos.
- Sabemos que eles enchem carros, kombis, até barcos e vêm despejar tudo aqui, no Portinho, na rodoviária, em locais já conhecidos de abandono de animais.
Nesse jogo de empurra é muito fácil responsabilizar a população, que realmente tem sua parcela de culpa. Mas, não se pode esperar que as campanhas se façam sozinhas e sem envolvimento da população. Os protetores que trabalharam pelo primeiro projeto continuam com dificuldades em castrar animais e não vêem melhoras na situação dos animais.
Os coordenadores do projeto sabem que a população deve participar. Sabem que o problema é de todos. Mas, continuam batendo a cabeça na parede, varrendo o problema para baixo do tapete, escondendo os animais no abrigo, mascarando com os números de adoção, isentando a população de conhecer a realidade ao mesmo tempo em que a culpa de abandonar. Édio não queria que eu descrevesse o abrigo na matéria, porque iriam criticá-lo, chegou a dizer que poderia abandonar o projeto, pois não estava tendo lucro e só se incomodava. Enquanto esse tipo de atitude continuar o projeto está fadado ao fracasso.
Paulo Botafogo, que não recebe nada pelo seu trabalho, coloca a necessidade da luta pelos animais acima das críticas e dos problemas.
- O que choca é a indiferença geral. Isso é grave.
Posse responsável, a importância da castração no controle de animais, direitos dos animais, conhecimento da lei, devem ser divulgados para toda a população para que o canil não se torne apenas um depósito de animais. Que se espalhe a idéia do voluntariado, ao invés de se buscar o lucro em cima de um problema público.
Se o abrigo não for construído em uma área pública, com uma associação ou um grupo representativo de vários setores da sociedade que ajude a gerenciar o projeto, corre o risco de ficar a mercê das mudanças políticas.
Quem espera não somos nós, mas os pobres animais confinados naquelas pequenas celas frias.
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Abrigo dos horrores
Programa de controle de animais em Imbituba fracassa por recolher animais e tentar esconder o problema da população
O ambiente é úmido, escuro e fede a urina, mesmo depois de ter sido limpo. As condições insalubres do abrigo de animais de Imbituba, litoral sul de Santa Catarina, se agravaram de um ano para cá. Dos 110 animais poucos estão em condições que podemos chamar de saudáveis. Não que falte comida ou assistência veterinária, é que na nova política do projeto só os animais em más condições são recolhidos. A mudança evidencia o fracasso do projeto que ao invés de diminuir, aumentou o número de cães nas ruas pelo abandono. A precariedade do abrigo é tanta que o veterinário responsável pelo programa de controle de cães e gatos nas ruas, Édio Souza de Oliveira, proíbe imagens.
- Ele não está do jeito que eu gostaria, justifica.
Paulo Botafogo, presidente da Ong Fundo Vira-lata de Garopaba, visitou o lugar:
- O abrigo é tudo menos um abrigo. É um lugar frio e triste, com cães amontoados deitados no cimento frio, desesperados e apáticos.
Cães trancafiados em celas minúsculas, sem sol, sem espaço, é resultado de uma política que tenta esconder o problema da população. O serviço terceirizado da Clínica Veterinária Clinvet pode até tentar, mas não é capaz de cuidar do projeto sozinha. Tirar os animais das vistas da população não é uma medida eficaz: o problema parece resolvido, mas foi só mascarado. O próprio veterinário admite:
- Pensei que fosse limpar as ruas de Imbituba em um ano, mas pelo contrário, aumentou o número de cães na rua, cada vez as pessoas soltam mais.
O repasse mensal é de R$ 5.500. O custo de alimentação, medicamentos, funcionários, transporte e manutenção da área onde está o abrigo, geralmente ultrapassa esse valor, segundo o veterinário. De fato manter um abrigo de animais não é barato e não resolve o problema da superpopulação animal. Por esse motivo, as organizações de proteção animal aconselham a não recolher. Paulo Botafogo foi um dos protetores que tentou alertar Édio.
- Recolher e recolher seria uma coisa sem fim, desperdiçando o dinheiro público com um processo sem resultados práticos e que só produz sofrimento. Enquanto as campanhas de educação e de esterilização em massa de cães e gatos não forem feitas, essas fábricas de tristeza só refletem nossa incapacidade de lidar com a vida no planeta.
Édio é bem intencionado, mas lhe falta a experiência que os protetores tentaram e ainda tentam passar. Ele não quer ouvir.
- Não comento sobre Garopaba.
Em Garopaba o controle de animais é feito pela Ong Fundo Vira-Lata que trabalha com esterilização a baixo custo. Em seis anos de existência, a Ong sozinha tirou mais animais das ruas com esterilização do que qualquer canil que se tem notícia nessa região. A Organização Mundial de Saúde, OMS, recomenda a esterilização como a única forma de atacar eficazmente o problema da superpopulação de animais nas ruas. Apesar disso, Édio não concorda em oferecer esterilização a baixo custo. Ele acha que seria antiético com a clínica dele e do outro veterinário da cidade cobrar mais barato pela cirurgia de esterilização. Na ética financeira, talvez. Talvez ele não saiba que a maioria das pessoas que trabalham pela causa animal não ganham um tostão, pelo contrário, usam o próprio dinheiro e se enchem de dívidas por não conseguir negar ajuda aos seres que sofrem. Há protetores em Imbituba que não levam mais seus animais em clínicas daqui. Quando precisam de castração, enchem um carro e vão a Garopaba.
Desde o início do projeto Édio promete que vai construir um novo abrigo, orçado em 30 mil reais. O município não tem planos de bancar a construção. Se o abrigo for construído por Édio, será no terreno dele, com o dinheiro dele, ou seja, será particular. E não se pode basear um programa público de controle de animais em um canil particular. Talvez ele planeje tocar o canil sozinho caso o poder público abandone o projeto, o que pode ocorrer, mas parece que ele está contando com a boa vontade eterna dos políticos. Outro problema de um canil particular é que ele tira da população a responsabilidade e a possibilidade de vigiar o que está sendo feito com os animais e com o dinheiro público.
O abrigo
Quando o projeto começou, em outubro de 2006, os responsáveis insistiam em recolher todo animal que vagasse pelas ruas, achando que dessa forma acabariam com o problema. Não houve preocupação em construir um abrigo. Foi cedido um dos prédios abandonados do ICC, que, toscamente adaptado, logo começou a receber animais.
Os canis são todos na parte interna, sem acesso ao ar livre. No salão central, são dez baias, de dois por três metros, onde fica a maior parte dos cães. Sem luz solar direta, o piso está sempre molhado. São até oito cães em cada baia que tem um estrado de madeira onde eles se amontoam para dormir. Os latidos ensurdecedores ecoam nas paredes cobertas de azulejos brancos. As janelas altas não são suficientes para ventilar o forte odor de urina. Como não há pátio, os tratadores colocam coleiras e correntes nos cães e os levam em grupos para tomar sol do lado de fora do prédio. Além de ser trabalhoso, isso às vezes rende problemas. Em uma das vezes que visitei o canil, um dos tratadores misturou os cães ao levá-los para o sol e colocou-os em baias trocadas. Os outros funcionários levaram a tarde toda para corrigir a confusão.
Qualquer coisa diferente gera algazarra entre os moradores do pavilhão central. Quando algum deles foge, os latidos dos que ficam presos é ensurdecedor. De vez em quando dá briga e o tratador tem de ir separar. O último que saiu separava os animais a pauladas. Não há voluntários, os responsáveis pelo projeto não aceitam ajuda.
No pavilhão central alguns cães latem e se jogam contra as grades desesperados, mendigando atenção. Outros permanecem deitados, com ar depressivo, acompanhando de longe os visitantes.
Do lado oposto às baias, algumas salas também receberam portões de madeira, já reforçadas com tela devido às mordidas dos mais aflitos. Na última sala do pavilhão central, fica a ‘solitária’, onde estão os cães agressivos. Presos em pequenas celas de um metro por um e meio, eles raramente saem para tomar sol.
O mais veterano dos cães na solitária é um Pitbul amarelo que está preso há quatro meses. Depressivo, não esboça reação, nem quando chamado. Parece ter perdido a noção de que é um cachorro, num lugar onde só vê paredes, acabou se confundindo com uma. Outro que está na solitária é um vira-lata preto enorme. Ele olha desconfiado pelas frestas da porta e late raivoso como quem cobra a presença do advogado.
O tratador mostra dois cães que tiveram os olhos perfurados na rua. Um deles ainda não enxerga, mas vem cambaleando até o portão de sua baia atraído pelas vozes humanas. Mesmo cegos, os cães continuam amigos do homem.
O outro já recuperou parte da visão. É um cãozinho peludo minúsculo, daqueles de colo. Deve ter sido abandonado por uma dessas madames que os compram para enfeitar o colo e quando percebem que eles fazem cocô, descartam-nos como a uma roupa fora de moda. É uma noção invertida de valores que se afirma no comércio de animais e na proliferação das lojas pet shops. A vida do animal é reduzida a um valor estético tal qual um bicho de pelúcia. No fim, uma parte desses cães-objetos vai parar nas ruas, onde procriam, gerando mais animais errantes, sofredores de um sistema onde a vida tem valor de mercado e até desconto para os mestiços.
A legislação brasileira é uma das mais avançadas do mundo em proteção animal. A lei de proteção aos animais existe desde 1934 - Decreto-lei nº 24645 -, e foi complementada com a Lei 9.605 de 1998 - Lei dos Crimes Ambientais. Pelo menos a Lei Municipal nº 3.223/06, sancionada em 12 de setembro de 2006, garante que os animais saudáveis não podem ser mortos como forma de controle populacional. Os cães e gatos recolhidos ficam no abrigo até que sejam adotados ou morram naturalmente.
No segundo andar fica o gatil. São seis gatos presos em um antigo banheiro com os mictórios ainda na parede. Eles ficam deitados em meio às fezes e urina misturados na areia espalhada pelo chão. Gatos são bichos muito higiênicos, aprendem sozinhos a usar a caixinha de areia. Normalmente não deitam na areia que usam para fazer cocô. Mas no lugar não há outro lugar para deitar além do piso frio de cerâmica. A areia é trocada a cada 15 dias. Não chega a ter mau cheiro, mas um cocô feito fora da areia denuncia que nem os gatos consideram mais a areia apropriada para isso. Além disso o contato com as fezes de outros animais, pode transmitir doenças, como a toxoplasmose, e verminoses. O gatil é um retrato do improviso do abrigo.
Culpar a população tornou-se um hábito
Édio atribui os problemas do programa à população. Sabe que para que o povo participe, deveria haver educação, mas admite que esse trabalho não existe. Édio diz que no projeto redigido por ele há a participação da secretaria de educação, para o envolvimento das escolas.
-Talvez seja falha minha por não cobrar, não ter levado o projeto e dito o que precisa ser feito.
Talvez seja mesmo. Mas, a secretaria de educação fica a trezentos metros do abrigo de animais. Impossível não ouvir os latidos desesperados dessa distância. Se nem como cidadã, a secretária de educação, Leda Pamato de Souza, se interessou pelo abrigo, difícil esperar uma iniciativa mais ousada que um seco ‘não é comigo’. Ela afirma não poder fazer nada, pois não foi solicitada.
Falha mesmo está em querer resolver o problema acreditando na auto-suficiência do serviço terceirizado.
- O povo tem de fazer parte da solução - deduz a coordenadora da Vigilância Sanitária Sandra Mara Leal. Ela atribui o aumento de animais na rua à falta de consciência da população, não só da cidade, mas dos municípios vizinhos.
- Sabemos que eles enchem carros, kombis, até barcos e vêm despejar tudo aqui, no Portinho, na rodoviária, em locais já conhecidos de abandono de animais.
Nesse jogo de empurra é muito fácil responsabilizar a população, que realmente tem sua parcela de culpa. Mas, não se pode esperar que as campanhas se façam sozinhas e sem envolvimento da população. Os protetores que trabalharam pelo primeiro projeto continuam com dificuldades em castrar animais e não vêem melhoras na situação dos animais.
Os coordenadores do projeto sabem que a população deve participar. Sabem que o problema é de todos. Mas, continuam batendo a cabeça na parede, varrendo o problema para baixo do tapete, escondendo os animais no abrigo, mascarando com os números de adoção, isentando a população de conhecer a realidade ao mesmo tempo em que a culpa de abandonar. Édio não queria que eu descrevesse o abrigo na matéria, porque iriam criticá-lo, chegou a dizer que poderia abandonar o projeto, pois não estava tendo lucro e só se incomodava. Enquanto esse tipo de atitude continuar o projeto está fadado ao fracasso.
Paulo Botafogo, que não recebe nada pelo seu trabalho, coloca a necessidade da luta pelos animais acima das críticas e dos problemas.
- O que choca é a indiferença geral. Isso é grave.
Posse responsável, a importância da castração no controle de animais, direitos dos animais, conhecimento da lei, devem ser divulgados para toda a população para que o canil não se torne apenas um depósito de animais. Que se espalhe a idéia do voluntariado, ao invés de se buscar o lucro em cima de um problema público.
Se o abrigo não for construído em uma área pública, com uma associação ou um grupo representativo de vários setores da sociedade que ajude a gerenciar o projeto, corre o risco de ficar a mercê das mudanças políticas.
Quem espera não somos nós, mas os pobres animais confinados naquelas pequenas celas frias.
quarta-feira, 9 de julho de 2008
Abrigo dos horrores
Essa é a versão extensa da grande reportagem. Por: Juliana Frandalozo
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Programa de controle de animais em Imbituba fracassa por tentar esconder o problema da população
Não dá para ter uma idéia da situação do abrigo de animais de Imbituba, litoral sul de Santa Catarina, sem ter ido visitá-lo. As condições insalubres se agravaram de um ano para cá. Dos 110 animais, sendo apenas seis gatos, poucos estão em condições que podemos chamar de saudáveis. Não que falte comida ou assistência veterinária, pelo contrário, acredito que muitos deles só agora, no abrigo, recebem esse tratamento.
A quantidade de animais desnutridos, doentes ou machucados é maior devido à nova política do projeto; só os animais em más condições são recolhidos.
Há um ano, o número de cães era maior e poucos deles estavam em condições ruins. Por inexperiência ou teimosia, os responsáveis pelo projeto insistiam em recolher todo animal que vagasse pelas ruas, achando que dessa forma acabariam com o problema. Isso mesmo depois de terem sido avisados, mais de uma vez, pelos protetores de Imbituba e de Garopaba que alertavam para o perigo de focar o projeto no recolhimento e não na esterilização.
Hoje podemos ver o fracasso do projeto pelas ruas da cidade. O número de animais errantes aumentou.
O ambiente é úmido, escuro e fede a urina, mesmo depois de ter sido limpo. As pequenas baias, onde ficam até oito cães, tem um estrado de madeira onde eles se amontoam para dormir. Os latidos ensurdecedores que ecoam nas paredes cobertas de azulejos brancos nos obriga a conversar aos berros.
O lugar era uma fábrica de ácido sulfúrico, desativada em 1992 quando a Indústria Carbonífera Catarinense encerrou suas atividades. Desde então os antigos prédios dessa área fechada do Porto de Imbituba são usados para outros fins. Alguns setores da administração pública tem sua sede lá. Os prédios sem uso foram depredados e abandonados, alguns continuam assim até hoje. O último prédio à esquerda do portão de entrada é o lar de 104 cães e seis gatos recolhidos das ruas de Imbituba. Parece irônico que um edifício abandonado sirva agora para abrigar animais abandonados, mas é só uma conveniência.
Quando o projeto começou, em 25 de outubro de 2006, não houve preocupação em construir um abrigo. Foi cedido um dos prédios abandonados do ICC, que, toscamente adaptado, logo começou a receber animais.
Para que o abrigo de animais funcionasse em uma fábrica desativada foram necessários alguns ajustes. Os canis são todos na parte interna, sem acesso ao ar livre. No salão central, são dez baias, de dois por três metros, onde fica a maior parte dos cães. Sem luz solar direta, o piso está sempre molhado.
As portas são de madeira tosca, fechadas com tramelas e cadeados. As janelas altas não são suficientes para ventilar o forte odor de urina de cachorro. Como não há pátio, os tratadores colocam coleiras e correntes nos cães e os levam em grupos para tomar sol do lado de fora do prédio. Além de ser trabalhoso, isso às vezes rende problemas. Em uma das vezes que visitei o canil, um dos tratadores misturou os cães ao levá-los para o sol e colocou-os em canis trocados. O outro tratador e a veterinária assistente levaram a tarde toda para corrigir a confusão.
Qualquer coisa diferente provoca aquela algazarra entre os moradores deste pavilhão. De vez em quando dá briga e o tratador tem de ir separar. O último que saiu separava os animais a pauladas. Sempre que visito o canil o tratador é outro. O atual gosta dos animais, mas se conseguir emprego melhor vai embora porque o salário é baixo. O trabalho não pára nem no domingo. Não há voluntários. Se depender da simpatia da esposa do veterinário, mesmo que haja candidatos, estes durariam pouco tempo.
Alguns cães latem e se jogam contra as grades desesperados, mendigando atenção. Outros permanecem deitados, com ar depressivo, acompanhando de longe os visitantes. Do lado oposto às baias, algumas salas também receberam portões de madeira, já reforçadas com tela devido às mordidas dos mais aflitos. Na última sala do pavilhão central, fica a ‘solitária’, onde estão os cães agressivos. Presos em pequenas celas de um metro por um e meio, de vez em quando eles são levados para tomar sol. O mais veterano dos cães na solitária é um Pitbul amarelo que está preso há quatro meses. Depressivo, não esboça reação, nem quando chamado. Parece ter perdido a noção de que é um cachorro, num lugar onde só vê paredes, acabou se confundindo com uma. Outro que está na solitária é um vira-lata preto enorme, olha desconfiado pelas frestas da porta e late raivoso como quem cobra a presença do advogado.
Uma mestiça de Pitbul levou a sorte grande. Com só quinze dias de solitária, será adotada. Mansa como um cordeirinho, não entende o que faz ali, olha para todos com seus grandes olhos de caramelo, ganha afagos, mas tem de voltar para a cela, onde espera o dia da liberdade.
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Programa de controle de animais em Imbituba fracassa por tentar esconder o problema da população
Não dá para ter uma idéia da situação do abrigo de animais de Imbituba, litoral sul de Santa Catarina, sem ter ido visitá-lo. As condições insalubres se agravaram de um ano para cá. Dos 110 animais, sendo apenas seis gatos, poucos estão em condições que podemos chamar de saudáveis. Não que falte comida ou assistência veterinária, pelo contrário, acredito que muitos deles só agora, no abrigo, recebem esse tratamento.
A quantidade de animais desnutridos, doentes ou machucados é maior devido à nova política do projeto; só os animais em más condições são recolhidos.
Há um ano, o número de cães era maior e poucos deles estavam em condições ruins. Por inexperiência ou teimosia, os responsáveis pelo projeto insistiam em recolher todo animal que vagasse pelas ruas, achando que dessa forma acabariam com o problema. Isso mesmo depois de terem sido avisados, mais de uma vez, pelos protetores de Imbituba e de Garopaba que alertavam para o perigo de focar o projeto no recolhimento e não na esterilização.
Hoje podemos ver o fracasso do projeto pelas ruas da cidade. O número de animais errantes aumentou.
O ambiente é úmido, escuro e fede a urina, mesmo depois de ter sido limpo. As pequenas baias, onde ficam até oito cães, tem um estrado de madeira onde eles se amontoam para dormir. Os latidos ensurdecedores que ecoam nas paredes cobertas de azulejos brancos nos obriga a conversar aos berros.
O lugar era uma fábrica de ácido sulfúrico, desativada em 1992 quando a Indústria Carbonífera Catarinense encerrou suas atividades. Desde então os antigos prédios dessa área fechada do Porto de Imbituba são usados para outros fins. Alguns setores da administração pública tem sua sede lá. Os prédios sem uso foram depredados e abandonados, alguns continuam assim até hoje. O último prédio à esquerda do portão de entrada é o lar de 104 cães e seis gatos recolhidos das ruas de Imbituba. Parece irônico que um edifício abandonado sirva agora para abrigar animais abandonados, mas é só uma conveniência.
Quando o projeto começou, em 25 de outubro de 2006, não houve preocupação em construir um abrigo. Foi cedido um dos prédios abandonados do ICC, que, toscamente adaptado, logo começou a receber animais.
Para que o abrigo de animais funcionasse em uma fábrica desativada foram necessários alguns ajustes. Os canis são todos na parte interna, sem acesso ao ar livre. No salão central, são dez baias, de dois por três metros, onde fica a maior parte dos cães. Sem luz solar direta, o piso está sempre molhado.
As portas são de madeira tosca, fechadas com tramelas e cadeados. As janelas altas não são suficientes para ventilar o forte odor de urina de cachorro. Como não há pátio, os tratadores colocam coleiras e correntes nos cães e os levam em grupos para tomar sol do lado de fora do prédio. Além de ser trabalhoso, isso às vezes rende problemas. Em uma das vezes que visitei o canil, um dos tratadores misturou os cães ao levá-los para o sol e colocou-os em canis trocados. O outro tratador e a veterinária assistente levaram a tarde toda para corrigir a confusão.
Qualquer coisa diferente provoca aquela algazarra entre os moradores deste pavilhão. De vez em quando dá briga e o tratador tem de ir separar. O último que saiu separava os animais a pauladas. Sempre que visito o canil o tratador é outro. O atual gosta dos animais, mas se conseguir emprego melhor vai embora porque o salário é baixo. O trabalho não pára nem no domingo. Não há voluntários. Se depender da simpatia da esposa do veterinário, mesmo que haja candidatos, estes durariam pouco tempo.
Alguns cães latem e se jogam contra as grades desesperados, mendigando atenção. Outros permanecem deitados, com ar depressivo, acompanhando de longe os visitantes. Do lado oposto às baias, algumas salas também receberam portões de madeira, já reforçadas com tela devido às mordidas dos mais aflitos. Na última sala do pavilhão central, fica a ‘solitária’, onde estão os cães agressivos. Presos em pequenas celas de um metro por um e meio, de vez em quando eles são levados para tomar sol. O mais veterano dos cães na solitária é um Pitbul amarelo que está preso há quatro meses. Depressivo, não esboça reação, nem quando chamado. Parece ter perdido a noção de que é um cachorro, num lugar onde só vê paredes, acabou se confundindo com uma. Outro que está na solitária é um vira-lata preto enorme, olha desconfiado pelas frestas da porta e late raivoso como quem cobra a presença do advogado.
Uma mestiça de Pitbul levou a sorte grande. Com só quinze dias de solitária, será adotada. Mansa como um cordeirinho, não entende o que faz ali, olha para todos com seus grandes olhos de caramelo, ganha afagos, mas tem de voltar para a cela, onde espera o dia da liberdade.
Fotos do abrigo
Tiradas em maio de 2007Não tive autorização para fazer imagens atuais do abrigo.
Fotos: Juliana Frandalozo




Mesmo cegos, os cães continuam amigos do homem
Lá fora a algazarra continua. Quando algum deles foge, os latidos dos que ficam presos é ensurdecedor. O tratador mostra dois cães que tiveram os olhos perfurados na rua. Um deles ainda não enxerga, mas vem cambaleando até o portão de sua baia atraído pelas vozes humanas. Mesmo cegos, os cães continuam amigos do homem. O outro já recuperou parte da visão. É um cãozinho peludo minúsculo, daqueles de colo, com o pelo comprido e laranja, saindo aos tufos pelas orelhas. Deve ter sido abandonado por uma dessas madames que os compram para enfeitar o colo e quando percebem que eles fazem cocô, descartam-nos como a uma roupa da estação passada. No caso desse pequenino azarado só o abandono seria melhor que ter os olhos perfurados.
Certa vez ouvi uma dessas madames com seu Mini Pincher de bolso aguardando sua vez no veterinário, dizendo que ia pedir que sacrificassem o bichinho, pois ele, cego, caía na piscina. É uma noção invertida de valores que vêm se afirmando com o aumento do comércio de animais e com a indústria dos pet shops. A vida do animal é reduzida a um valor estético: ele deve ser bonitinho, pequeno, peludo e calmo, tal qual um bicho de pelúcia. Sempre aparecem pessoas no abrigo procurando animais com esse perfil. Algumas, inclusive, querem casais e exigem que não estejam castrados. Isso para transformá-los em procriadores e fazer comércio com os filhotes.
Uma grande parte da população se rende aos apelos estéticos movidos a filmes e desenhos animados e compra esses filhotes, de forma irresponsável. Muitos dão a desculpa dos filhos: “Ele quer tanto...”, outros compram por impulso, não resistem à carinha bonitinha deles nas vitrines da loja. No fim, uma parte desses cães-objetos vai parar nas ruas, onde procriam, gerando mais animais errantes, todos sofredores de um sistema onde a vida tem valor de mercado e até desconto para os mestiços.
Certa vez ouvi uma dessas madames com seu Mini Pincher de bolso aguardando sua vez no veterinário, dizendo que ia pedir que sacrificassem o bichinho, pois ele, cego, caía na piscina. É uma noção invertida de valores que vêm se afirmando com o aumento do comércio de animais e com a indústria dos pet shops. A vida do animal é reduzida a um valor estético: ele deve ser bonitinho, pequeno, peludo e calmo, tal qual um bicho de pelúcia. Sempre aparecem pessoas no abrigo procurando animais com esse perfil. Algumas, inclusive, querem casais e exigem que não estejam castrados. Isso para transformá-los em procriadores e fazer comércio com os filhotes.
Uma grande parte da população se rende aos apelos estéticos movidos a filmes e desenhos animados e compra esses filhotes, de forma irresponsável. Muitos dão a desculpa dos filhos: “Ele quer tanto...”, outros compram por impulso, não resistem à carinha bonitinha deles nas vitrines da loja. No fim, uma parte desses cães-objetos vai parar nas ruas, onde procriam, gerando mais animais errantes, todos sofredores de um sistema onde a vida tem valor de mercado e até desconto para os mestiços.
Os rejeitados dos rejeitados
Depois de visitar o pavilhão central, fomos até os cães sarnentos. Com doenças de pele, eles ficam isolados até que se curem. Nesgas de sol dão um ar mais acolhedor à sala onde ficam. Entro e um cão preto vem me recepcionar.
- Esse aí quando chegou não tinha um tufo de pêlo pra contar história, diz o tratador.
O cão está mesmo recuperado. Um outro cão, enorme, me olha de longe, a pele ferida e sem pêlos, além da extrema magreza, torna sua aparência horrível. Vou até ele e faço um afago. Ele fecha os olhos e chora baixinho como quem não recebe carinho há muito tempo. Vai demorar a ser adotado. Ele ainda não tem ‘padrão de adoção’.
- Esse aí quando chegou não tinha um tufo de pêlo pra contar história, diz o tratador.
O cão está mesmo recuperado. Um outro cão, enorme, me olha de longe, a pele ferida e sem pêlos, além da extrema magreza, torna sua aparência horrível. Vou até ele e faço um afago. Ele fecha os olhos e chora baixinho como quem não recebe carinho há muito tempo. Vai demorar a ser adotado. Ele ainda não tem ‘padrão de adoção’.
Os gatos do andar de cima
Todos os cães que estão no abrigo foram abandonados. Alguns pelos próprios donos que aproveitam quando não tem ninguém no abrigo e amarram os cães do lado de fora. Um desses enjeitados descansa amarrado a um gancho na parte da frente do abrigo. Foi abandonado com a pata traseira quebrada e muito desnutrido. A pata está se recuperando, mas a magreza ainda demora.
Um cãozinho triste está separado dos outros em um cercadinho. Apanhou numa briga. Ele ainda tem de aprender a se defender na prisão.
Um miado vindo de uma das entradas parece destoar do ambiente predominantemente canino: um gatinho pardo vem entrando por uma porta lateral.
- Esse aí fugiu e agora ninguém mais pega. Ele aparece quando está com fome.
Arisco, o gato observa o movimento de longe.
No segundo andar fica o gatil. São seis gatos presos em um antigo banheiro com os mictórios ainda na parede. Dentro dos boxes estão os dois mais ariscos deitados em meio às fezes e urina misturados na areia espalhada pelo chão. Gatos são bichos muito higiênicos, aprendem sozinhos a usar a caixinha de areia. Normalmente não deitam na areia que usam para fazer cocô. Mas no lugar não há outro lugar para deitar além do piso frio de cerâmica. A areia é trocada a cada 15 dias. Não chega a ter mau cheiro, mas um cocô feito fora da areia denuncia que nem os gatos consideram mais a areia apropriada para isso. Além disso o contato com as fezes de outros animais, pode transmitir doenças, como a toxoplasmose, e verminoses.
Um dos gatinhos deitados tem o olhar apático e fixo. Não esboça qualquer reação diante das visitas. Ele é preto, do tipo que não se doa em véspera de sexta-feira treze. Certa vez ouvi de um protetor de animais:
- Quando chega perto desses dias, os gatos pretos ficam indisponíveis para adoção porque as pessoas pegam pra fazer despacho na encruzilhada. Matam mesmo, é uma maldade.
Denúncias de rituais macabros com gatos são uma constante na vida de protetores.
Um gatinho branco passeia estressado na parte de cima dos boxes, onde fica a janela, procurando uma fresta para fugir.
Na saída, temos que esperar o tratador espantar os dois mais desesperados para fugir. Um deles se agarra à tela feito um macaco. O tratador não tem luvas apropriadas para cuidar de gatos, só com um pedaço de cano ele consegue minimizar o risco da fuga dos dois felinos.
O gatil é um retrato do improviso do abrigo.
Um cãozinho triste está separado dos outros em um cercadinho. Apanhou numa briga. Ele ainda tem de aprender a se defender na prisão.
Um miado vindo de uma das entradas parece destoar do ambiente predominantemente canino: um gatinho pardo vem entrando por uma porta lateral.
- Esse aí fugiu e agora ninguém mais pega. Ele aparece quando está com fome.
Arisco, o gato observa o movimento de longe.
No segundo andar fica o gatil. São seis gatos presos em um antigo banheiro com os mictórios ainda na parede. Dentro dos boxes estão os dois mais ariscos deitados em meio às fezes e urina misturados na areia espalhada pelo chão. Gatos são bichos muito higiênicos, aprendem sozinhos a usar a caixinha de areia. Normalmente não deitam na areia que usam para fazer cocô. Mas no lugar não há outro lugar para deitar além do piso frio de cerâmica. A areia é trocada a cada 15 dias. Não chega a ter mau cheiro, mas um cocô feito fora da areia denuncia que nem os gatos consideram mais a areia apropriada para isso. Além disso o contato com as fezes de outros animais, pode transmitir doenças, como a toxoplasmose, e verminoses.
Um dos gatinhos deitados tem o olhar apático e fixo. Não esboça qualquer reação diante das visitas. Ele é preto, do tipo que não se doa em véspera de sexta-feira treze. Certa vez ouvi de um protetor de animais:
- Quando chega perto desses dias, os gatos pretos ficam indisponíveis para adoção porque as pessoas pegam pra fazer despacho na encruzilhada. Matam mesmo, é uma maldade.
Denúncias de rituais macabros com gatos são uma constante na vida de protetores.
Um gatinho branco passeia estressado na parte de cima dos boxes, onde fica a janela, procurando uma fresta para fugir.
Na saída, temos que esperar o tratador espantar os dois mais desesperados para fugir. Um deles se agarra à tela feito um macaco. O tratador não tem luvas apropriadas para cuidar de gatos, só com um pedaço de cano ele consegue minimizar o risco da fuga dos dois felinos.
O gatil é um retrato do improviso do abrigo.
E se não recolher para onde eles vão?
A pergunta pode ser respondida pelo avesso: de onde eles vêm? Vêm do abandono. Aí que está a parcela de culpa da população.
Abandono é crime federal, mas grande parte da população não sabe disso, e os poucos que sabem, ou são protetores ou já foram denunciados pelo crime. E esses últimos geralmente o foram diversas vezes, pois a pena para esse tipo de crime é risível, e a pessoa denunciada, mesmo com provas evidentes, costuma ficar pouco tempo presa, sendo que uma multa, não muito alta, a livra facilmente. Recentemente o Jornal do Almoço da RBS de Florianópolis flagrou um carroceiro que espancou seu cavalo desmaiado de exaustão, no meio da rua. Ele havia sido denunciado outras dezessete vezes pelo mesmo motivo.
O criminoso que maltrata animais normalmente não se restringe a eles. Há estudos que comprovam que essas pessoas têm uma grande tendência a abusar de crianças e praticar outros crimes, hediondos inclusive.
- Pessoas que fazem esse tipo de coisa não são normais, são doentes - desabafa Sandra Mara Leal, coordenadora da vigilância sanitária responsável pelo projeto.
Abandono é crime federal, mas grande parte da população não sabe disso, e os poucos que sabem, ou são protetores ou já foram denunciados pelo crime. E esses últimos geralmente o foram diversas vezes, pois a pena para esse tipo de crime é risível, e a pessoa denunciada, mesmo com provas evidentes, costuma ficar pouco tempo presa, sendo que uma multa, não muito alta, a livra facilmente. Recentemente o Jornal do Almoço da RBS de Florianópolis flagrou um carroceiro que espancou seu cavalo desmaiado de exaustão, no meio da rua. Ele havia sido denunciado outras dezessete vezes pelo mesmo motivo.
O criminoso que maltrata animais normalmente não se restringe a eles. Há estudos que comprovam que essas pessoas têm uma grande tendência a abusar de crianças e praticar outros crimes, hediondos inclusive.
- Pessoas que fazem esse tipo de coisa não são normais, são doentes - desabafa Sandra Mara Leal, coordenadora da vigilância sanitária responsável pelo projeto.
As leis e o começo
Apesar das críticas, é cada vez maior o número de pessoas que se interessam pela causa animal. Não na esfera política, pois cachorro não vota, mas a consciência ambiental, intensificada com os movimentos ambientais na década de 1970, tem despertado pessoas comuns para problemas que antes eram ignorados.
A lei de proteção aos animais existe desde 1934 - Decreto-lei nº 24645 -, e foi complementada com a Lei 9.605 de 1998 - Lei dos Crimes Ambientais -, mas infelizmente a lei de papel não é respeitada ou sequer conhecida por todas as autoridades. Coube à sociedade, por vezes constituída em Organizações Não Governamentais lutar para que a lei fosse respeitada.
Além dessas duas leis, Imbituba possui, desde 1986, um Código de Posturas que determinava que não poderia haver cães na praia. Mas, não regulamentava como isso deveria ser feito.
Com base nesse código, uma tentativa malograda de recolher cães em Imbituba, no verão de 2006, acabou em uma denúncia feita pelo jornal Diário Catarinense. Os cães recolhidos eram amontoados às dezenas em um chiqueiro sem condições mínimas de higiene nem assistência veterinária.
Depois da denúncia alguns protetores se reuniram em um grupo que recebeu o nome de Amigo Bicho e passaram a cobrar do poder público uma solução humana e eficiente para diminuir o sofrimento dos animais abandonados.
Eles conseguiram marcar uma reunião com o então secretário de planejamento, Gilberto Barreto, no dia sete de março de 2006. Ele já tinha em mãos a redação da lei municipal que seria passada para a câmara de vereadores ainda naquela semana. Apesar dos conselhos e informações passadas pelos protetores, a lei corroborava o Código de Posturas e um abrigo já estava a caminho. Sem alternativa, sobrou aos protetores insistir nas campanhas de informação e na esterilização em massa. Eles redigiram um anteprojeto com sugestões de ação e foco das campanhas a serem feitas. Um dos trechos diz: “Enfatizamos que se não houver um esforço concentrado para a esterilização em massa dos animais, o trabalho não surtirá efeito algum no controle de natalidade.”
No documento de 28 páginas tem até um e-mail enviado pela Suipa – Sociedade União Internacional de Proteção aos Animais – com diretrizes para auxiliar na construção de um abrigo.
As diretrizes foram ignoradas e a Lei Municipal nº 3.223/06 foi sancionada em 12 de setembro de 2006, para regulamentar o papel do poder público no controle de cães e gatos.
Paulo Botafogo, presidente da Ong Fundo Vira-lata de Garopaba, foi um dos protetores presentes naquela reunião. Associado ao WSPA – sigla em inglês para Sociedade Internacional de Proteção aos Animais, ele explicou porque não se deve basear o programa em captura.
- Eles vão acumulando os cães num canil, quando percebem tem tanto bicho que não sobra dinheiro para a forma mais eficiente de controle de animais: a castração.
Não foi por acaso que as previsões dos protetores se confirmaram. Com anos de experiência na causa animal e troca de informações com sociedades e Ongs de todo o mundo, o resultado já estava evidente antes mesmo de começar o projeto. Apesar disso, houve confiança na época. Ofereceu-se apoio, trabalho voluntário, mas a ajuda foi negada. Auto-suficiente, o município lançou a licitação e contratou a Clinvet, com quem já tinha uma dívida, da gestão anterior, pela esterilização de animais.
Da Clinvet, não se podia esperar mais do que serviço veterinário. Informação não é o forte deles.
A lei de proteção aos animais existe desde 1934 - Decreto-lei nº 24645 -, e foi complementada com a Lei 9.605 de 1998 - Lei dos Crimes Ambientais -, mas infelizmente a lei de papel não é respeitada ou sequer conhecida por todas as autoridades. Coube à sociedade, por vezes constituída em Organizações Não Governamentais lutar para que a lei fosse respeitada.
Além dessas duas leis, Imbituba possui, desde 1986, um Código de Posturas que determinava que não poderia haver cães na praia. Mas, não regulamentava como isso deveria ser feito.
Com base nesse código, uma tentativa malograda de recolher cães em Imbituba, no verão de 2006, acabou em uma denúncia feita pelo jornal Diário Catarinense. Os cães recolhidos eram amontoados às dezenas em um chiqueiro sem condições mínimas de higiene nem assistência veterinária.
Depois da denúncia alguns protetores se reuniram em um grupo que recebeu o nome de Amigo Bicho e passaram a cobrar do poder público uma solução humana e eficiente para diminuir o sofrimento dos animais abandonados.
Eles conseguiram marcar uma reunião com o então secretário de planejamento, Gilberto Barreto, no dia sete de março de 2006. Ele já tinha em mãos a redação da lei municipal que seria passada para a câmara de vereadores ainda naquela semana. Apesar dos conselhos e informações passadas pelos protetores, a lei corroborava o Código de Posturas e um abrigo já estava a caminho. Sem alternativa, sobrou aos protetores insistir nas campanhas de informação e na esterilização em massa. Eles redigiram um anteprojeto com sugestões de ação e foco das campanhas a serem feitas. Um dos trechos diz: “Enfatizamos que se não houver um esforço concentrado para a esterilização em massa dos animais, o trabalho não surtirá efeito algum no controle de natalidade.”
No documento de 28 páginas tem até um e-mail enviado pela Suipa – Sociedade União Internacional de Proteção aos Animais – com diretrizes para auxiliar na construção de um abrigo.
As diretrizes foram ignoradas e a Lei Municipal nº 3.223/06 foi sancionada em 12 de setembro de 2006, para regulamentar o papel do poder público no controle de cães e gatos.
Paulo Botafogo, presidente da Ong Fundo Vira-lata de Garopaba, foi um dos protetores presentes naquela reunião. Associado ao WSPA – sigla em inglês para Sociedade Internacional de Proteção aos Animais, ele explicou porque não se deve basear o programa em captura.
- Eles vão acumulando os cães num canil, quando percebem tem tanto bicho que não sobra dinheiro para a forma mais eficiente de controle de animais: a castração.
Não foi por acaso que as previsões dos protetores se confirmaram. Com anos de experiência na causa animal e troca de informações com sociedades e Ongs de todo o mundo, o resultado já estava evidente antes mesmo de começar o projeto. Apesar disso, houve confiança na época. Ofereceu-se apoio, trabalho voluntário, mas a ajuda foi negada. Auto-suficiente, o município lançou a licitação e contratou a Clinvet, com quem já tinha uma dívida, da gestão anterior, pela esterilização de animais.
Da Clinvet, não se podia esperar mais do que serviço veterinário. Informação não é o forte deles.
O lado de lá
O Dr. Édio Souza de Oliveira é o veterinário responsável pelo programa de controle de cães e gatos nas ruas, da secretaria de vigilância sanitária. Sua esposa, Zuleiga de Oliveira, é quem responde pela Clinvet, vencedora da licitação lançada pelo município em 2006 para realizar o programa que começou em 25 de outubro de 2006. O contrato tem validade de um ano, podendo ser renovado por mais cinco anos.
Édio é um profissional ocupado. Cumpre meio período como funcionário público concursado na Cidasc, Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina, onde responde pela subárea de Imbituba. Enquanto está fora da clínica, quem atende os animais é outra veterinária, Ana Paula.
Relutante em marcar uma hora para a entrevista, Édio concordou em falar sobre o abrigo durante o expediente, no sábado de manhã. Às oito horas eu estava lá, com a ajuda de dois amigos que fariam a filmagem e as fotos, poderia conversar à vontade. A clínica abriu só às nove. Enquanto esperava, um senhor que aguardava uma consulta para seu gatinho, contava histórias da época em que fotografava a caça às baleias na década de 1970, na praia do Porto.
Imbituba é uma cidade cheia de histórias, basta ter tempo para ouvi-las. Infelizmente eu não tinha tanto tempo assim. Mais uns minutos de espera e o veterinário conduziu a minha ‘equipe’ para uma sala. Tentei sem sucesso autorização para as imagens. Por fim, somente as fotos e a gravação em áudio da entrevista foram permitidas. Imagens do canil, nem pensar.
- Ele não está do jeito que eu gostaria, justificou Édio.
- Tudo bem, mas vou ter de descrever o canil na matéria. Acho que seria melhor se o leitor visse as fotos e fizesse o próprio juízo.
- Se você fizer isso vão me criticar.
- ...
Que fique claro que não tenho intenção de desmerecer o trabalho que já foi feito pelo Dr. Édio. Mas, há um ano atrás, quando apurei a mesma matéria, o abrigo já tinha problemas e as promessas de que seriam sanados, aliadas à minha boa vontade em relação a elas, me fizeram dar um voto de confiança no projeto que tinha então, sete meses. Desde então tenho acompanhado a mudança freqüente de tratadores no canil e as histórias de abandono cada vez mais constantes.
Parece que Édio confia plenamente no bem que está fazendo para os animais. Comparado ao que existia antes do abrigo, realmente é um avanço. Mas, comparado à situação de um ano atrás, fica evidente o fracasso do foco inicial do projeto que era de ‘limpar’ as ruas. Esse termo entre parênteses vem condenar uma idéia errada que se tem que os animais da rua têm de ir para um abrigo, porque deixam a cidade feia. Tirar os animais das vistas da população é uma medida mais política do que eficaz: o problema parece resolvido, mas foi só mascarado. De fato, o próprio veterinário admite:
-Pensei que fosse limpar as ruas de Imbituba em um ano, mas pelo contrário, aumentou o número de cães na rua, cada vez as pessoas soltam mais.
O repasse mensal é de R$ 5.500. O custo de alimentação, medicamentos, funcionários, transporte e manutenção da área onde está o abrigo, geralmente ultrapassa esse valor, segundo o veterinário. De fato manter um abrigo de animais não é barato e não resolve o problema da superpopulação animal, por esse motivo, as organizações de proteção animal aconselham a não recolher animais.
Édio lembra que alguns voluntários com quem trabalhava antes de iniciar o projeto recomendaram que não se recolhesse, porque as pessoas iriam abusar, mas ele acreditou que ia dar certo. Hoje, reconhece:
- Eles estavam certos. Não demos conta.
A conclusão óbvia, porém tardia, mostra uma realidade nas ruas de Imbituba: aumentou o número de animais errantes.
No canil, pelo contrário, o número diminuiu. Abrigou até 170 animais, quando Édio quis “deixar a cidade limpa”. Ele diz que chegou a ter prejuízo de 2 mil reais nesse período. Nesse ano mudaram o rumo do projeto e a castração gratuita em comunidades carentes começou timidamente.
- Hoje recolhemos só as emergências, Pitbul na rua, cães doentes e acidentados.
Apesar dessa nova direção, a idéia de limpeza continua firme:
- Dá um aglomerado de cães na rua, uma pessoa se incomoda e liga para cá e quer que a gente resolva. Como aconteceu já, ligaram dizendo que os cães estavam aglomerados na frente de uma casa, porque uma vizinha dava comida. E a pessoa que não dava comida começou a se incomodar. Então nós fomos lá e recolhemos sete cães.
Se eu pudesse chutar, diria que deve ter sido uma casa das grandes, em um bairro nobre. Esse tipo de atitude retira da comunidade a responsabilidade pelos animais da rua. O Dr. Édio é bem intencionado, mas lhe falta a experiência que os protetores tentaram e ainda tentam passar. Mas ele não quer ouvir.
- Não comento sobre Garopaba.
Em Garopaba, não há programa público de controle de animais. O trabalho é feito pela Ong Fundo Vira-Lata que trabalha exclusivamente com esterilização a baixo custo. Em seis anos de existência, a Ong sozinha tirou mais animais das ruas com esterilização do que qualquer canil que se tem notícia nessa região. A Organização Mundial de Saúde, OMS, recomenda a esterilização como a única forma de atacar eficazmente o problema da superpopulação de animais nas ruas.
Outra coisa que Édio não concorda é com esterilização a baixo custo.
- Não podemos generalizar, senão vou quebrar a minha clínica e a do meu colega. Eu não posso pegar um projeto desses que é carente e comunitário e colocar para pessoas que possam pagar.
Ele acha que seria antiético com a clínica dele e do outro veterinário da cidade - Dr. Nestor Detânico, da Cia. Animal - cobrar mais barato pela cirurgia de esterilização. Na ética financeira, talvez. Lembro da quantidade de pessoas que trabalham na causa animal sem ganhar um tostão, pelo contrário, usando o próprio dinheiro e se enchendo de dívidas por não conseguir negar ajuda aos seres que sofrem. Mas, Dr. Édio parece lembrar apenas de seus clientes que certamente tem dinheiro para tosar seus poodles. Há protetores em Imbituba que não levam mais seus animais em clínicas daqui. Quando precisam de castração, enchem um carro e vão a Garopaba.
Zuleiga, a esposa, interrompe a entrevista três vezes. Uma senhora de palavras ásperas que mal disfarçam o seu desagrado em fornecer informações sobre o abrigo. Parece estranho que uma pessoa com um olhar tão duro, possa tratar de animais, com os quais só se conversa com o olhar e a sensibilidade. Ela nos deixa pouco a vontade para trabalhar, reclamando do movimento da clínica. As madames com seus poodles estão esperando.
Ao final da entrevista, Édio promete entregar o relatório com os números do abrigo naquele mês. No dia seguinte, ao voltar para buscar os papéis, ele não está na clínica. Zuleiga mais uma vez transpira antipatia e se recusa a entregar os números, apesar da obrigação de fornecê-los por se tratar de informação correspondente a um projeto público.
- Tudo bem, eu pego na vigilância sanitária – respondo.
Ela entrega somente a cópia de um termo de adoção. Um erro no número da lei evidencia o despreparo da clínica para o trabalho de informação.
A cortesia que falta em Zuleiga, sobra na atenção e simpatia da coordenadora da vigilância sanitária, Sandra Mara Leal. Seu olhar sorridente reflete uma boa vontade de quem faz o possível pelo seu trabalho. Não esconde nada.
- Menina, quando se entra nisso não tem mais jeito – diz do abrigo, em tom descontraído.
O canil é só mais um problema que a vigilância sanitária tem de resolver. Os caramujos do Bairro Nova Brasília, por exemplo, já renderam mais reportagens na TV que o canil ou qualquer outro problema de Imbituba. Por algum motivo, o molusco parece incomodar mais que a prisão dos cães. O caracol gosmento que alguns contrabandistas tentaram fazer passar por scargot, pode transmitir vermes e causar doenças.
Pela quantidade de esforços, pensei que já houvesse muitos casos de contaminação.
Mas, não houve nem um único caso para dramatizar a cena que a equipe de TV, já sem novidades, busca. Porque então tanta preocupação?
- São medidas preventivas de saúde pública – responde Sandra.
Cães e gatos nunca foram alvos de medidas preventivas em nenhum grau. Como eles não são caramujos, não podem ser mortos por prevenção. Ainda bem. O que diferencia o projeto de Imbituba e o de outras cidades é que a eutanásia não é aplicada em animais saudáveis como forma de controle populacional. A Lei Municipal garante isso. Os cães e gatos recolhidos ficam no abrigo até que sejam adotados.
O próximo da lista é o mosquito da dengue, que nem mesmo chega vivo a Santa Catarina. Fico esperando a vez dos cães e gatos.
Édio é um profissional ocupado. Cumpre meio período como funcionário público concursado na Cidasc, Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina, onde responde pela subárea de Imbituba. Enquanto está fora da clínica, quem atende os animais é outra veterinária, Ana Paula.
Relutante em marcar uma hora para a entrevista, Édio concordou em falar sobre o abrigo durante o expediente, no sábado de manhã. Às oito horas eu estava lá, com a ajuda de dois amigos que fariam a filmagem e as fotos, poderia conversar à vontade. A clínica abriu só às nove. Enquanto esperava, um senhor que aguardava uma consulta para seu gatinho, contava histórias da época em que fotografava a caça às baleias na década de 1970, na praia do Porto.
Imbituba é uma cidade cheia de histórias, basta ter tempo para ouvi-las. Infelizmente eu não tinha tanto tempo assim. Mais uns minutos de espera e o veterinário conduziu a minha ‘equipe’ para uma sala. Tentei sem sucesso autorização para as imagens. Por fim, somente as fotos e a gravação em áudio da entrevista foram permitidas. Imagens do canil, nem pensar.
- Ele não está do jeito que eu gostaria, justificou Édio.
- Tudo bem, mas vou ter de descrever o canil na matéria. Acho que seria melhor se o leitor visse as fotos e fizesse o próprio juízo.
- Se você fizer isso vão me criticar.
- ...
Que fique claro que não tenho intenção de desmerecer o trabalho que já foi feito pelo Dr. Édio. Mas, há um ano atrás, quando apurei a mesma matéria, o abrigo já tinha problemas e as promessas de que seriam sanados, aliadas à minha boa vontade em relação a elas, me fizeram dar um voto de confiança no projeto que tinha então, sete meses. Desde então tenho acompanhado a mudança freqüente de tratadores no canil e as histórias de abandono cada vez mais constantes.
Parece que Édio confia plenamente no bem que está fazendo para os animais. Comparado ao que existia antes do abrigo, realmente é um avanço. Mas, comparado à situação de um ano atrás, fica evidente o fracasso do foco inicial do projeto que era de ‘limpar’ as ruas. Esse termo entre parênteses vem condenar uma idéia errada que se tem que os animais da rua têm de ir para um abrigo, porque deixam a cidade feia. Tirar os animais das vistas da população é uma medida mais política do que eficaz: o problema parece resolvido, mas foi só mascarado. De fato, o próprio veterinário admite:
-Pensei que fosse limpar as ruas de Imbituba em um ano, mas pelo contrário, aumentou o número de cães na rua, cada vez as pessoas soltam mais.
O repasse mensal é de R$ 5.500. O custo de alimentação, medicamentos, funcionários, transporte e manutenção da área onde está o abrigo, geralmente ultrapassa esse valor, segundo o veterinário. De fato manter um abrigo de animais não é barato e não resolve o problema da superpopulação animal, por esse motivo, as organizações de proteção animal aconselham a não recolher animais.
Édio lembra que alguns voluntários com quem trabalhava antes de iniciar o projeto recomendaram que não se recolhesse, porque as pessoas iriam abusar, mas ele acreditou que ia dar certo. Hoje, reconhece:
- Eles estavam certos. Não demos conta.
A conclusão óbvia, porém tardia, mostra uma realidade nas ruas de Imbituba: aumentou o número de animais errantes.
No canil, pelo contrário, o número diminuiu. Abrigou até 170 animais, quando Édio quis “deixar a cidade limpa”. Ele diz que chegou a ter prejuízo de 2 mil reais nesse período. Nesse ano mudaram o rumo do projeto e a castração gratuita em comunidades carentes começou timidamente.
- Hoje recolhemos só as emergências, Pitbul na rua, cães doentes e acidentados.
Apesar dessa nova direção, a idéia de limpeza continua firme:
- Dá um aglomerado de cães na rua, uma pessoa se incomoda e liga para cá e quer que a gente resolva. Como aconteceu já, ligaram dizendo que os cães estavam aglomerados na frente de uma casa, porque uma vizinha dava comida. E a pessoa que não dava comida começou a se incomodar. Então nós fomos lá e recolhemos sete cães.
Se eu pudesse chutar, diria que deve ter sido uma casa das grandes, em um bairro nobre. Esse tipo de atitude retira da comunidade a responsabilidade pelos animais da rua. O Dr. Édio é bem intencionado, mas lhe falta a experiência que os protetores tentaram e ainda tentam passar. Mas ele não quer ouvir.
- Não comento sobre Garopaba.
Em Garopaba, não há programa público de controle de animais. O trabalho é feito pela Ong Fundo Vira-Lata que trabalha exclusivamente com esterilização a baixo custo. Em seis anos de existência, a Ong sozinha tirou mais animais das ruas com esterilização do que qualquer canil que se tem notícia nessa região. A Organização Mundial de Saúde, OMS, recomenda a esterilização como a única forma de atacar eficazmente o problema da superpopulação de animais nas ruas.
Outra coisa que Édio não concorda é com esterilização a baixo custo.
- Não podemos generalizar, senão vou quebrar a minha clínica e a do meu colega. Eu não posso pegar um projeto desses que é carente e comunitário e colocar para pessoas que possam pagar.
Ele acha que seria antiético com a clínica dele e do outro veterinário da cidade - Dr. Nestor Detânico, da Cia. Animal - cobrar mais barato pela cirurgia de esterilização. Na ética financeira, talvez. Lembro da quantidade de pessoas que trabalham na causa animal sem ganhar um tostão, pelo contrário, usando o próprio dinheiro e se enchendo de dívidas por não conseguir negar ajuda aos seres que sofrem. Mas, Dr. Édio parece lembrar apenas de seus clientes que certamente tem dinheiro para tosar seus poodles. Há protetores em Imbituba que não levam mais seus animais em clínicas daqui. Quando precisam de castração, enchem um carro e vão a Garopaba.
Zuleiga, a esposa, interrompe a entrevista três vezes. Uma senhora de palavras ásperas que mal disfarçam o seu desagrado em fornecer informações sobre o abrigo. Parece estranho que uma pessoa com um olhar tão duro, possa tratar de animais, com os quais só se conversa com o olhar e a sensibilidade. Ela nos deixa pouco a vontade para trabalhar, reclamando do movimento da clínica. As madames com seus poodles estão esperando.
Ao final da entrevista, Édio promete entregar o relatório com os números do abrigo naquele mês. No dia seguinte, ao voltar para buscar os papéis, ele não está na clínica. Zuleiga mais uma vez transpira antipatia e se recusa a entregar os números, apesar da obrigação de fornecê-los por se tratar de informação correspondente a um projeto público.
- Tudo bem, eu pego na vigilância sanitária – respondo.
Ela entrega somente a cópia de um termo de adoção. Um erro no número da lei evidencia o despreparo da clínica para o trabalho de informação.
A cortesia que falta em Zuleiga, sobra na atenção e simpatia da coordenadora da vigilância sanitária, Sandra Mara Leal. Seu olhar sorridente reflete uma boa vontade de quem faz o possível pelo seu trabalho. Não esconde nada.
- Menina, quando se entra nisso não tem mais jeito – diz do abrigo, em tom descontraído.
O canil é só mais um problema que a vigilância sanitária tem de resolver. Os caramujos do Bairro Nova Brasília, por exemplo, já renderam mais reportagens na TV que o canil ou qualquer outro problema de Imbituba. Por algum motivo, o molusco parece incomodar mais que a prisão dos cães. O caracol gosmento que alguns contrabandistas tentaram fazer passar por scargot, pode transmitir vermes e causar doenças.
Pela quantidade de esforços, pensei que já houvesse muitos casos de contaminação.
Mas, não houve nem um único caso para dramatizar a cena que a equipe de TV, já sem novidades, busca. Porque então tanta preocupação?
- São medidas preventivas de saúde pública – responde Sandra.
Cães e gatos nunca foram alvos de medidas preventivas em nenhum grau. Como eles não são caramujos, não podem ser mortos por prevenção. Ainda bem. O que diferencia o projeto de Imbituba e o de outras cidades é que a eutanásia não é aplicada em animais saudáveis como forma de controle populacional. A Lei Municipal garante isso. Os cães e gatos recolhidos ficam no abrigo até que sejam adotados.
O próximo da lista é o mosquito da dengue, que nem mesmo chega vivo a Santa Catarina. Fico esperando a vez dos cães e gatos.
Adoções, um mistério
Toda sexta é dia de feira. Os cães de melhor aparência são levados a uma praça pública onde ficarão expostos como se fossem tomates, repolhos e berinjelas. Os feios não vão, é claro. Antes eles ficavam em um terreno ao lado da prefeitura, acorrentados ao sol. Não sei se foi coincidência, mas logo depois que vi essa cena lastimável e conversei de forma enfática com o funcionário que estava cuidando da feira, ela mudou de lugar. Foi para uma praça
arborizada, ao lado da rádio AM.
Para estarem em condições de adoção, todos os animais são castrados, vacinados e fazem um check up completo. Tem dias que ninguém adota, outros dias saem dois ou três.
Segundo Édio, 40% dos animais recolhidos são adotados. O índice de adoção é alto, se comparado ao de outros abrigos de animais. Há visitantes, até de outras cidades, quase todos os dias. O livro de visitas do canil não nega. Como é possível, se o projeto não tem amplo alcance? Édio atribui à divulgação do trabalho e a necessidade de as pessoas terem um cão.
- Outro dia eu fui à rádio fazer uma entrevista sobre isso e as pessoas começaram a ligar e não teve um telefonema de crítica, só teve elogio e isso repercute bem para o trabalho. Embora eu não daria nota 10, começando pelo canil tem muita coisa que precisa corrigir.
Já ouvi isso tantas vezes que soa bizarro. A divulgação que se faz é que a prefeitura tem um abrigo que recolhe animais. E pelo jeito o maior resultado da divulgação até agora foi o de aumentar o problema. Isso, segundo a coordenadora da vigilância sanitária.
A rodoviária é um ponto de abandono de animais. Lá moram duas cadelas irmãs, abandonadas ainda filhotes, que são tratadas por um advogado, morador de uma rua próxima. Elas já foram recolhidas pelo canil e castradas, mas, segundo uma funcionária da lanchonete da rodoviária elas fugiram do abrigo.
- Estavam magras e sujas, agora se recuperaram porque a gente cuida.
As duas talvez estejam computadas nos números de adoção. Se fugiram mesmo do canil ou se foram adotadas e abandonadas em seguida, não tive como saber, o suposto cadastro dos animais recolhidos só existe para o computador da Clinvet. Não seria a primeira vez que fico sabendo de fugas no abrigo – certa vez ao visitar o gatil, o tratador confessou que todos os gatos haviam fugido - mas não existe um item no relatório que dê o número de fugas.
Também não tem o número de abandono após a adoção. É o que acontece quando a adoção é feita sem o devido acompanhamento, que no projeto, é quase nulo. Sem as campanhas de posse responsável, as pessoas adotam o animal com muita facilidade, mas também o abandonam na primeira dificuldade.
Culpar a população tornou-se um hábito
Édio, como os outros, atribui os problemas do programa à população. Sabe que para que o povo participe, deveria haver educação, mas admite que esse trabalho não existe. Édio diz que no projeto redigido por ele há a participação da secretaria de educação, para o envolvimento das escolas. Mas, a secretária de educação, Leda Pamato de Souza, diz não ter sido acionada para qualquer projeto educacional nessa área.
-Talvez seja falha minha por não cobrar, não ter levado o projeto e dito o que precisa ser feito.
Talvez seja mesmo. Mas, a secretaria de educação fica a trezentos metros do abrigo de animais. Impossível não ouvir os latidos desesperados dessa distância. Se nem como cidadã, a secretária de educação se interessou pelo abrigo, difícil esperar uma iniciativa mais ousada que um seco ‘não é comigo’.
Falha mesmo está em querer resolver o problema acreditando na auto-suficiência do serviço terceirizado.
- O povo tem de fazer parte da solução - deduz Sandra Leal.
Sandra atribui o aumento de animais na rua à falta de consciência da população, não só da cidade, mas dos municípios vizinhos.
- Sabemos que eles enchem carros, kombis, até barcos e vêm despejar tudo aqui, no Portinho, na rodoviária, em locais já conhecidos de abandono de animais.
Édio também culpa a população e a falta de campanhas de educação. Já a secretária de educação, Leda Pamato de Souza, afirma não poder fazer nada, pois não foi solicitada.
Nesse jogo de empurra é muito fácil responsabilizar a população, que realmente tem sua parcela de culpa. Mas, não se pode esperar que as campanhas se façam sozinhas e sem envolvimento da população. Os protetores que trabalharam pelo primeiro projeto continuam com dificuldades em castrar animais e não vêem melhoras na situação dos animais.
Os coordenadores do projeto sabem que a população deve participar. Sabem que o problema é de todos. Mas, continuam batendo a cabeça na parede, varrendo o problema para baixo do tapete, escondendo os animais no abrigo, mascarando com os números de adoção, isentando a população de conhecer a realidade ao mesmo tempo em que a culpa de abandonar. Édio não queria que eu descrevesse o abrigo na matéria, porque iriam criticá-lo, chegou a dizer que poderia abandonar o projeto, pois não estava tendo lucro e só se incomodava. Enquanto esse tipo de atitude continuar o projeto está fadado ao fracasso.
Paulo Botafogo, que não recebe nada pelo seu trabalho, coloca a necessidade da luta pelos animais acima das críticas e dos problemas.
- Uma das coisas que mais me choca é a indiferença geral. Isso é grave.
Posse responsável, a importância da castração no controle de animais, direitos dos animais, conhecimento da lei, devem ser divulgados para toda a população para que o canil não se torne apenas um depósito de animais. Que se espalhe a idéia do voluntariado, ao invés de se buscar o lucro em cima de um problema público.
-Talvez seja falha minha por não cobrar, não ter levado o projeto e dito o que precisa ser feito.
Talvez seja mesmo. Mas, a secretaria de educação fica a trezentos metros do abrigo de animais. Impossível não ouvir os latidos desesperados dessa distância. Se nem como cidadã, a secretária de educação se interessou pelo abrigo, difícil esperar uma iniciativa mais ousada que um seco ‘não é comigo’.
Falha mesmo está em querer resolver o problema acreditando na auto-suficiência do serviço terceirizado.
- O povo tem de fazer parte da solução - deduz Sandra Leal.
Sandra atribui o aumento de animais na rua à falta de consciência da população, não só da cidade, mas dos municípios vizinhos.
- Sabemos que eles enchem carros, kombis, até barcos e vêm despejar tudo aqui, no Portinho, na rodoviária, em locais já conhecidos de abandono de animais.
Édio também culpa a população e a falta de campanhas de educação. Já a secretária de educação, Leda Pamato de Souza, afirma não poder fazer nada, pois não foi solicitada.
Nesse jogo de empurra é muito fácil responsabilizar a população, que realmente tem sua parcela de culpa. Mas, não se pode esperar que as campanhas se façam sozinhas e sem envolvimento da população. Os protetores que trabalharam pelo primeiro projeto continuam com dificuldades em castrar animais e não vêem melhoras na situação dos animais.
Os coordenadores do projeto sabem que a população deve participar. Sabem que o problema é de todos. Mas, continuam batendo a cabeça na parede, varrendo o problema para baixo do tapete, escondendo os animais no abrigo, mascarando com os números de adoção, isentando a população de conhecer a realidade ao mesmo tempo em que a culpa de abandonar. Édio não queria que eu descrevesse o abrigo na matéria, porque iriam criticá-lo, chegou a dizer que poderia abandonar o projeto, pois não estava tendo lucro e só se incomodava. Enquanto esse tipo de atitude continuar o projeto está fadado ao fracasso.
Paulo Botafogo, que não recebe nada pelo seu trabalho, coloca a necessidade da luta pelos animais acima das críticas e dos problemas.
- Uma das coisas que mais me choca é a indiferença geral. Isso é grave.
Posse responsável, a importância da castração no controle de animais, direitos dos animais, conhecimento da lei, devem ser divulgados para toda a população para que o canil não se torne apenas um depósito de animais. Que se espalhe a idéia do voluntariado, ao invés de se buscar o lucro em cima de um problema público.
Mais promessas
- Estamos com um projeto pronto, só falta definir o terreno e falta o dinheiro.
Assim como há um ano, Édio promete que vai construir um novo abrigo, orçado em 30 mil reais. O município não tem planos de bancar a construção. Se o abrigo for construído por Édio, será no terreno dele, com o dinheiro dele, ou seja, será particular. E não se pode basear um programa público de controle de animais em um canil particular. Talvez ele planeje tocar o canil sozinho caso o poder público abandone o projeto, o que pode ocorrer, mas parece que ele está contando com a boa vontade eterna dos políticos. Édio afirma que o prefeito tem intenção de continuar o projeto.
Mais uma vez se revela a vontade de se fazer tudo sozinho. Mas, não é assim que as coisas funcionam, como garante a presidente da Suipa, Izabel Cristina Nascimento.
- Sem pessoas associadas ficará impraticável se construir algo, se manter um abrigo porque as despesas são enormes, os funcionários devem estar sempre sendo questionados, fiscalizados para que não se "relaxe" o trabalho porque os animais não falam e não sabem questionar e nem se defender.
Imbituba é uma cidade pequena como outra qualquer. Suas richas políticas beiram a mesquinharia, e a imprensa é o eco dos partidos. Donos de rádio e jornais são os mesmos que se candidatam à prefeitura. Se o abrigo não for ancorado solidamente em uma área pública, com uma associação ou um grupo representativo de vários setores da sociedade que gerencie o projeto, corre o risco de ficar a mercê das mesquinharias políticas. Foi o que aconteceu com o sistema de triagem de lixo, usado como alvo de disputas eleitoreiras e abandonado logo depois das eleições.
Quem espera não somos nós, mas os pobres animais confinados naquelas pequenas celas frias.
Assim como há um ano, Édio promete que vai construir um novo abrigo, orçado em 30 mil reais. O município não tem planos de bancar a construção. Se o abrigo for construído por Édio, será no terreno dele, com o dinheiro dele, ou seja, será particular. E não se pode basear um programa público de controle de animais em um canil particular. Talvez ele planeje tocar o canil sozinho caso o poder público abandone o projeto, o que pode ocorrer, mas parece que ele está contando com a boa vontade eterna dos políticos. Édio afirma que o prefeito tem intenção de continuar o projeto.
Mais uma vez se revela a vontade de se fazer tudo sozinho. Mas, não é assim que as coisas funcionam, como garante a presidente da Suipa, Izabel Cristina Nascimento.
- Sem pessoas associadas ficará impraticável se construir algo, se manter um abrigo porque as despesas são enormes, os funcionários devem estar sempre sendo questionados, fiscalizados para que não se "relaxe" o trabalho porque os animais não falam e não sabem questionar e nem se defender.
Imbituba é uma cidade pequena como outra qualquer. Suas richas políticas beiram a mesquinharia, e a imprensa é o eco dos partidos. Donos de rádio e jornais são os mesmos que se candidatam à prefeitura. Se o abrigo não for ancorado solidamente em uma área pública, com uma associação ou um grupo representativo de vários setores da sociedade que gerencie o projeto, corre o risco de ficar a mercê das mesquinharias políticas. Foi o que aconteceu com o sistema de triagem de lixo, usado como alvo de disputas eleitoreiras e abandonado logo depois das eleições.
Quem espera não somos nós, mas os pobres animais confinados naquelas pequenas celas frias.
Quem está por trás da proteção aos animais
No Brasil, as Ongs e grupos de protetores que abraçam a causa animal acabam tendo de, muitas vezes, enfrentar a ignorância dos políticos para garantir pelo menos o direito do animal à vida. A eutanásia é praticada indiscriminadamente sob o pretexto de ‘saúde pública’ em cidades ‘ditas’ de primeiro mundo, principalmente no estado de São Paulo, onde o problema tomou proporções de descontrole. Na capital, o poder público determina que os Centros de Controle de Zoonoses, os temidos CCZs, exterminem 50 animais por semana, o que é incompatível com a lei. Essa política da ignorância já é aplicada há muitos anos e tanto é comprovada sua ineficácia que a quantidade de animais errantes só aumentou.
Aqui em Santa Catarina temos um exemplo muito mais eficiente e humano, que por sinal, não foi realizado pelo poder público. A Ong Fundo Vira-Lata de Garopaba, cidade vizinha a Imbituba, realiza há seis anos um projeto de esterilização em massa de cães e gatos e já conseguiu resultados visíveis.
- Hoje não se vê mais cadelas no cio circulando pela cidade. Controlamos a população de animais com os mutirões de castração e já estamos no nível de manutenção do projeto - diz Geisa, fundadora da Ong.
Ela enfatiza que o fator determinante do projeto foi a determinação de não recolher animais.
- O canil é um depósito de animais, se tivéssemos um, teríamos em pouco tempo centenas de cães e não teríamos dinheiro para as esterilizações. Vêm pessoas até do Rio Grande do Sul para esterilizar seus cães, pois o valor que cobramos é bem menor que o das clínicas comuns
A Ong, sem fins lucrativos, mantém o projeto com doações, venda de camisetas e itens com motivos animais e cobrança de atendimentos veterinários.
O que os protetores temem é que o projeto seja abandonado quando mudar a gestão na prefeitura. Uma vez construído o canil pelo município, somente o dinheiro público pode mantê-lo. Não há outro grupo em condições para isso.
Há casos em que o animal passa a vida toda no canil, pois não tem perfil para ser adotado. Geralmente tem algum problema de pele crônico, ou uma das patas atrofiadas, ou ainda são cegos, entre outros casos, nos quais o animal é rejeitado por sua aparência.
Entre prepotência e ignorância o projeto de Imbituba foi feito às pressas e logo o abrigo virou um depósito de animais rejeitados como previram os protetores.
Aqui em Santa Catarina temos um exemplo muito mais eficiente e humano, que por sinal, não foi realizado pelo poder público. A Ong Fundo Vira-Lata de Garopaba, cidade vizinha a Imbituba, realiza há seis anos um projeto de esterilização em massa de cães e gatos e já conseguiu resultados visíveis.
- Hoje não se vê mais cadelas no cio circulando pela cidade. Controlamos a população de animais com os mutirões de castração e já estamos no nível de manutenção do projeto - diz Geisa, fundadora da Ong.
Ela enfatiza que o fator determinante do projeto foi a determinação de não recolher animais.
- O canil é um depósito de animais, se tivéssemos um, teríamos em pouco tempo centenas de cães e não teríamos dinheiro para as esterilizações. Vêm pessoas até do Rio Grande do Sul para esterilizar seus cães, pois o valor que cobramos é bem menor que o das clínicas comuns
A Ong, sem fins lucrativos, mantém o projeto com doações, venda de camisetas e itens com motivos animais e cobrança de atendimentos veterinários.
O que os protetores temem é que o projeto seja abandonado quando mudar a gestão na prefeitura. Uma vez construído o canil pelo município, somente o dinheiro público pode mantê-lo. Não há outro grupo em condições para isso.
Há casos em que o animal passa a vida toda no canil, pois não tem perfil para ser adotado. Geralmente tem algum problema de pele crônico, ou uma das patas atrofiadas, ou ainda são cegos, entre outros casos, nos quais o animal é rejeitado por sua aparência.
Entre prepotência e ignorância o projeto de Imbituba foi feito às pressas e logo o abrigo virou um depósito de animais rejeitados como previram os protetores.
Sempre a mesma pergunta
- Porque ao invés de cuidar de cachorro, você não vai cuidar de criança abandonada?
O protetor de animais que nunca ouviu essa crítica atire o primeiro biscoito canino. E não só uma, mas várias vezes de gente de tudo que é tipo, origem, nível escolar e econômico. Os mais inexperientes talvez se percam em suas palavras, mas a observação revela o óbvio: quem faz esse tipo de indagação nunca atuou em causa nenhuma, seja em favor de crianças carentes, seja pelos animais. Isso se revela na ignorância total do assunto.
- Não é que eu ache que sofrimento de animal não valha a pena, a
solidariedade, o dinheiro. Mas eu preferia que tudo isso fosse gasto com eles depois de não haver mais crianças pedindo esmolas, adultos famintos, famílias morando embaixo de pontes e adolescentes morrendo drogados nas calçadas
Esse é o primeiro parágrafo de um artigo da escritora Lya Luft publicado na Revista Veja em 25 de agosto de 2004. Ele reproduz a opinião de muitas pessoas que ignoram a realidade que cerca a causa animal e a situação das crianças no Brasil.
Se existe alguma comparação a ser feita entre crianças e animais, ela começa por uma denominação legal: incapaz. Nessa palavra está transcrita a situação das crianças, que dependem de outras pessoas para sobreviver, sua família ou, na ausência desta, o Estado. Os animais domésticos também se encaixam na categoria de incapazes. Pois não podem se cuidar sozinhos, uma vez que não são silvestres, e dependem de humanos para se manterem vivos. E na ausência de humanos para cuidar deles, há o Estado. É o que está escrito no artigo 1º do Decreto-lei nº 24645, de 10 de julho de 1934: Todos os animais existentes no País são tutelados do Estado.
O artigo 3° continua: Os animais serão assistidos em juízo pelos representantes do Ministério Público, seus substitutos legais e pelos membros das sociedades protetoras de animais.
Crianças também são assistidas pelo Estado através do Conselho Tutelar. A função do Conselho é zelar pelo cumprimento do Estatuto da Criança e do Adolescente. Mas, antes de tudo, a família é quem detêm o direito e o dever de cuidar de suas crianças. Portanto, não se recolhe crianças na rua como quem recolhe cães, pois isso não é permitido, pode ser considerado aliciamento ou seqüestro.
Também há uma tentativa na crítica de se romantizar as crianças de rua. Primeiro, que elas não são tão indefesas quanto se imagina. Indefesas mesmo ficam quando sua própria família lhe oferece risco. E aí, ao contrário do que acontece na causa animal, o Estado intervém e a leva para morar em um local seguro. Mas, as crianças que se vê nas ruas das grandes cidades não, elas geralmente andam em grupos, para se protegerem. Também tem família, mãe e pai, ou um dos dois que nem sempre sabem que a criança sai para esmolar. Também acontece de os próprios pais mandarem seu rebento para a rua pedir esmola ou vender bugigangas. Tente abordar uma dessas crianças com uma proposta de ‘cuidá-la’. Tente e saia correndo, pois podem aparecer seus reais protetores que não vão gostar da história. Fora que muitas delas fogem do Conselho Tutelar, pois preferem viver na rua.
Mas isso só acontece em grandes cidades, não em Imbituba e seus 32 mil habitantes. Aqui, só aparecem pedintes quando eles vêm de outras cidades em grupos de ciganos ou índios.
Mesmo assim, tem gente que ainda faz a mesma pergunta.
Há outros intelectuais que comparam animais e crianças, mas de outra forma. Foi o que fez Danuza Leão em um artigo publicado em sete de setembro de 2003 na Folha de S. Paulo, quando descobriu a importância de esterilizar seus gatos.
- É por amor, por muito amor -e consciência- que é preferível que nasçam menos gatos, já que não existem lares suficientes para adotá-los. Foi impossível não fazer um paralelo com a infinidade de crianças abandonadas nos sinais de trânsito e nas Febens da vida, sem ter quem cuide delas e a cada ano nascendo mais e mais, algumas de mães de 13, 15 anos, sobretudo no Nordeste, terra do presidente Lula, que conhece o problema melhor do que qualquer um de nós. Conhece, mas não fala no assunto; nem ele nem uma só pessoa do governo. Por que será?
O protetor de animais que nunca ouviu essa crítica atire o primeiro biscoito canino. E não só uma, mas várias vezes de gente de tudo que é tipo, origem, nível escolar e econômico. Os mais inexperientes talvez se percam em suas palavras, mas a observação revela o óbvio: quem faz esse tipo de indagação nunca atuou em causa nenhuma, seja em favor de crianças carentes, seja pelos animais. Isso se revela na ignorância total do assunto.
- Não é que eu ache que sofrimento de animal não valha a pena, a
solidariedade, o dinheiro. Mas eu preferia que tudo isso fosse gasto com eles depois de não haver mais crianças pedindo esmolas, adultos famintos, famílias morando embaixo de pontes e adolescentes morrendo drogados nas calçadas
Esse é o primeiro parágrafo de um artigo da escritora Lya Luft publicado na Revista Veja em 25 de agosto de 2004. Ele reproduz a opinião de muitas pessoas que ignoram a realidade que cerca a causa animal e a situação das crianças no Brasil.
Se existe alguma comparação a ser feita entre crianças e animais, ela começa por uma denominação legal: incapaz. Nessa palavra está transcrita a situação das crianças, que dependem de outras pessoas para sobreviver, sua família ou, na ausência desta, o Estado. Os animais domésticos também se encaixam na categoria de incapazes. Pois não podem se cuidar sozinhos, uma vez que não são silvestres, e dependem de humanos para se manterem vivos. E na ausência de humanos para cuidar deles, há o Estado. É o que está escrito no artigo 1º do Decreto-lei nº 24645, de 10 de julho de 1934: Todos os animais existentes no País são tutelados do Estado.
O artigo 3° continua: Os animais serão assistidos em juízo pelos representantes do Ministério Público, seus substitutos legais e pelos membros das sociedades protetoras de animais.
Crianças também são assistidas pelo Estado através do Conselho Tutelar. A função do Conselho é zelar pelo cumprimento do Estatuto da Criança e do Adolescente. Mas, antes de tudo, a família é quem detêm o direito e o dever de cuidar de suas crianças. Portanto, não se recolhe crianças na rua como quem recolhe cães, pois isso não é permitido, pode ser considerado aliciamento ou seqüestro.
Também há uma tentativa na crítica de se romantizar as crianças de rua. Primeiro, que elas não são tão indefesas quanto se imagina. Indefesas mesmo ficam quando sua própria família lhe oferece risco. E aí, ao contrário do que acontece na causa animal, o Estado intervém e a leva para morar em um local seguro. Mas, as crianças que se vê nas ruas das grandes cidades não, elas geralmente andam em grupos, para se protegerem. Também tem família, mãe e pai, ou um dos dois que nem sempre sabem que a criança sai para esmolar. Também acontece de os próprios pais mandarem seu rebento para a rua pedir esmola ou vender bugigangas. Tente abordar uma dessas crianças com uma proposta de ‘cuidá-la’. Tente e saia correndo, pois podem aparecer seus reais protetores que não vão gostar da história. Fora que muitas delas fogem do Conselho Tutelar, pois preferem viver na rua.
Mas isso só acontece em grandes cidades, não em Imbituba e seus 32 mil habitantes. Aqui, só aparecem pedintes quando eles vêm de outras cidades em grupos de ciganos ou índios.
Mesmo assim, tem gente que ainda faz a mesma pergunta.
Há outros intelectuais que comparam animais e crianças, mas de outra forma. Foi o que fez Danuza Leão em um artigo publicado em sete de setembro de 2003 na Folha de S. Paulo, quando descobriu a importância de esterilizar seus gatos.
- É por amor, por muito amor -e consciência- que é preferível que nasçam menos gatos, já que não existem lares suficientes para adotá-los. Foi impossível não fazer um paralelo com a infinidade de crianças abandonadas nos sinais de trânsito e nas Febens da vida, sem ter quem cuide delas e a cada ano nascendo mais e mais, algumas de mães de 13, 15 anos, sobretudo no Nordeste, terra do presidente Lula, que conhece o problema melhor do que qualquer um de nós. Conhece, mas não fala no assunto; nem ele nem uma só pessoa do governo. Por que será?
Vida e quase morte de Africano
Em uma rua da Vila Nova, um cão preto é deixado agonizante na calçada. De tão desnutrido nem fica em pé. Um morador o encontra a tempo de ver o carro se afastar com os criminosos que o abandonaram. É o Péru, dono de uma pequena pizzaria que abre na temporada. Ele leva água e comida. De tão fraco o bicho come deitado. Ele está tão magro que dá pra contar os ossos da coluna.
Temendo pela vida do pobre animal, os moradores acionam o canil da prefeitura. Foram pelo menos sete tentativas ao longo de duas semanas e nem sinal do carro branco da Clinvet. Comovidos com a situação, outros moradores cuidam dele também. Um leva ração, outro o resto do almoço e ele vai se recuperando, ganha peso e até um nome: Africano.
Seis meses depois, Africano é um belo cão preto, enorme e manso, com pinta de cão de raça e hábitos de vira-lata. Mora na rua mesmo, mas todos se sentem um pouco responsáveis por ele. Sem que ninguém viesse mostrar como, os moradores aprenderam a cuidar de uma vida, que desde o início dependeu da boa vontade e da compaixão. Hoje, os moradores agradecem que o carro do canil não tenha vindo buscá-lo.
Temendo pela vida do pobre animal, os moradores acionam o canil da prefeitura. Foram pelo menos sete tentativas ao longo de duas semanas e nem sinal do carro branco da Clinvet. Comovidos com a situação, outros moradores cuidam dele também. Um leva ração, outro o resto do almoço e ele vai se recuperando, ganha peso e até um nome: Africano.
Seis meses depois, Africano é um belo cão preto, enorme e manso, com pinta de cão de raça e hábitos de vira-lata. Mora na rua mesmo, mas todos se sentem um pouco responsáveis por ele. Sem que ninguém viesse mostrar como, os moradores aprenderam a cuidar de uma vida, que desde o início dependeu da boa vontade e da compaixão. Hoje, os moradores agradecem que o carro do canil não tenha vindo buscá-lo.
No meio do caminho havia um cão
As ruas da Vila Nova, um dos maiores bairros de Imbituba, são tranqüilas e estreitas. A rua principal leva à velha igreja construída em tempos de Armação quando o óleo de baleia servia de liga para o cimento. A praça em frente fecha em dias de festa assim como a rua principal. Mas aquele dia não era de festa. O sol estava esquentava o início da tarde.Uns poucos estudantes se encaminhavam para o salão paroquial, onde haveria uma reunião. Sem nenhum motivo especial, saí para a reunião com a máquina fotográfica. Imbituba é uma dessas cidades fotogênicas, onde sair desprovido de máquina é arriscar perder uma bela foto. Só não poderia esperar que a cena que eu encontraria não seria bela.
No meio do caminho havia um cão. Morto. Um filhote provavelmente atropelado, com o sangue fresco ainda escorrendo num filete pela calçada. Pouco antes, um passante o viu, deu a volta e seguiu seu caminho. Sem saber o que fazer, me aproximei e parei olhando em volta. Ninguém. Com a mente em turbilhão, ia me afastando quando lembrei da câmera. Saquei na mesma hora, troquei as pilhas e antes de tirar a primeira foto apareceu um senhor, morador daquela rua. Não sabia se o pobre cãozinho tinha dono e enquanto eu tirava as fotos ele ia dizendo que nunca tinha visto tanto bicho na rua. Por fim, conseguiu uma pá com um vizinho, cavou um buraco ali perto numa parte onde a calçada era de terra e eu peguei o filhote nas mãos, o sangue ainda gotejando, e o deixei na pequena cova.
Duas semanas depois, descubro pelo coordenador do projeto de zoonoses, Ivan Vitório, que deveria ter chamado a Clinvet para dar destino adequado ao bichinho morto. Ivan é quem recolhe os animais com o veículo da Clinvet.
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