O Dr. Édio Souza de Oliveira é o veterinário responsável pelo programa de controle de cães e gatos nas ruas, da secretaria de vigilância sanitária. Sua esposa, Zuleiga de Oliveira, é quem responde pela Clinvet, vencedora da licitação lançada pelo município em 2006 para realizar o programa que começou em 25 de outubro de 2006. O contrato tem validade de um ano, podendo ser renovado por mais cinco anos.
Édio é um profissional ocupado. Cumpre meio período como funcionário público concursado na Cidasc, Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina, onde responde pela subárea de Imbituba. Enquanto está fora da clínica, quem atende os animais é outra veterinária, Ana Paula.
Relutante em marcar uma hora para a entrevista, Édio concordou em falar sobre o abrigo durante o expediente, no sábado de manhã. Às oito horas eu estava lá, com a ajuda de dois amigos que fariam a filmagem e as fotos, poderia conversar à vontade. A clínica abriu só às nove. Enquanto esperava, um senhor que aguardava uma consulta para seu gatinho, contava histórias da época em que fotografava a caça às baleias na década de 1970, na praia do Porto.
Imbituba é uma cidade cheia de histórias, basta ter tempo para ouvi-las. Infelizmente eu não tinha tanto tempo assim. Mais uns minutos de espera e o veterinário conduziu a minha ‘equipe’ para uma sala. Tentei sem sucesso autorização para as imagens. Por fim, somente as fotos e a gravação em áudio da entrevista foram permitidas. Imagens do canil, nem pensar.
- Ele não está do jeito que eu gostaria, justificou Édio.
- Tudo bem, mas vou ter de descrever o canil na matéria. Acho que seria melhor se o leitor visse as fotos e fizesse o próprio juízo.
- Se você fizer isso vão me criticar.
- ...
Que fique claro que não tenho intenção de desmerecer o trabalho que já foi feito pelo Dr. Édio. Mas, há um ano atrás, quando apurei a mesma matéria, o abrigo já tinha problemas e as promessas de que seriam sanados, aliadas à minha boa vontade em relação a elas, me fizeram dar um voto de confiança no projeto que tinha então, sete meses. Desde então tenho acompanhado a mudança freqüente de tratadores no canil e as histórias de abandono cada vez mais constantes.
Parece que Édio confia plenamente no bem que está fazendo para os animais. Comparado ao que existia antes do abrigo, realmente é um avanço. Mas, comparado à situação de um ano atrás, fica evidente o fracasso do foco inicial do projeto que era de ‘limpar’ as ruas. Esse termo entre parênteses vem condenar uma idéia errada que se tem que os animais da rua têm de ir para um abrigo, porque deixam a cidade feia. Tirar os animais das vistas da população é uma medida mais política do que eficaz: o problema parece resolvido, mas foi só mascarado. De fato, o próprio veterinário admite:
-Pensei que fosse limpar as ruas de Imbituba em um ano, mas pelo contrário, aumentou o número de cães na rua, cada vez as pessoas soltam mais.
O repasse mensal é de R$ 5.500. O custo de alimentação, medicamentos, funcionários, transporte e manutenção da área onde está o abrigo, geralmente ultrapassa esse valor, segundo o veterinário. De fato manter um abrigo de animais não é barato e não resolve o problema da superpopulação animal, por esse motivo, as organizações de proteção animal aconselham a não recolher animais.
Édio lembra que alguns voluntários com quem trabalhava antes de iniciar o projeto recomendaram que não se recolhesse, porque as pessoas iriam abusar, mas ele acreditou que ia dar certo. Hoje, reconhece:
- Eles estavam certos. Não demos conta.
A conclusão óbvia, porém tardia, mostra uma realidade nas ruas de Imbituba: aumentou o número de animais errantes.
No canil, pelo contrário, o número diminuiu. Abrigou até 170 animais, quando Édio quis “deixar a cidade limpa”. Ele diz que chegou a ter prejuízo de 2 mil reais nesse período. Nesse ano mudaram o rumo do projeto e a castração gratuita em comunidades carentes começou timidamente.
- Hoje recolhemos só as emergências, Pitbul na rua, cães doentes e acidentados.
Apesar dessa nova direção, a idéia de limpeza continua firme:
- Dá um aglomerado de cães na rua, uma pessoa se incomoda e liga para cá e quer que a gente resolva. Como aconteceu já, ligaram dizendo que os cães estavam aglomerados na frente de uma casa, porque uma vizinha dava comida. E a pessoa que não dava comida começou a se incomodar. Então nós fomos lá e recolhemos sete cães.
Se eu pudesse chutar, diria que deve ter sido uma casa das grandes, em um bairro nobre. Esse tipo de atitude retira da comunidade a responsabilidade pelos animais da rua. O Dr. Édio é bem intencionado, mas lhe falta a experiência que os protetores tentaram e ainda tentam passar. Mas ele não quer ouvir.
- Não comento sobre Garopaba.
Em Garopaba, não há programa público de controle de animais. O trabalho é feito pela Ong Fundo Vira-Lata que trabalha exclusivamente com esterilização a baixo custo. Em seis anos de existência, a Ong sozinha tirou mais animais das ruas com esterilização do que qualquer canil que se tem notícia nessa região. A Organização Mundial de Saúde, OMS, recomenda a esterilização como a única forma de atacar eficazmente o problema da superpopulação de animais nas ruas.
Outra coisa que Édio não concorda é com esterilização a baixo custo.
- Não podemos generalizar, senão vou quebrar a minha clínica e a do meu colega. Eu não posso pegar um projeto desses que é carente e comunitário e colocar para pessoas que possam pagar.
Ele acha que seria antiético com a clínica dele e do outro veterinário da cidade - Dr. Nestor Detânico, da Cia. Animal - cobrar mais barato pela cirurgia de esterilização. Na ética financeira, talvez. Lembro da quantidade de pessoas que trabalham na causa animal sem ganhar um tostão, pelo contrário, usando o próprio dinheiro e se enchendo de dívidas por não conseguir negar ajuda aos seres que sofrem. Mas, Dr. Édio parece lembrar apenas de seus clientes que certamente tem dinheiro para tosar seus poodles. Há protetores em Imbituba que não levam mais seus animais em clínicas daqui. Quando precisam de castração, enchem um carro e vão a Garopaba.
Zuleiga, a esposa, interrompe a entrevista três vezes. Uma senhora de palavras ásperas que mal disfarçam o seu desagrado em fornecer informações sobre o abrigo. Parece estranho que uma pessoa com um olhar tão duro, possa tratar de animais, com os quais só se conversa com o olhar e a sensibilidade. Ela nos deixa pouco a vontade para trabalhar, reclamando do movimento da clínica. As madames com seus poodles estão esperando.
Ao final da entrevista, Édio promete entregar o relatório com os números do abrigo naquele mês. No dia seguinte, ao voltar para buscar os papéis, ele não está na clínica. Zuleiga mais uma vez transpira antipatia e se recusa a entregar os números, apesar da obrigação de fornecê-los por se tratar de informação correspondente a um projeto público.
- Tudo bem, eu pego na vigilância sanitária – respondo.
Ela entrega somente a cópia de um termo de adoção. Um erro no número da lei evidencia o despreparo da clínica para o trabalho de informação.
A cortesia que falta em Zuleiga, sobra na atenção e simpatia da coordenadora da vigilância sanitária, Sandra Mara Leal. Seu olhar sorridente reflete uma boa vontade de quem faz o possível pelo seu trabalho. Não esconde nada.
- Menina, quando se entra nisso não tem mais jeito – diz do abrigo, em tom descontraído.
O canil é só mais um problema que a vigilância sanitária tem de resolver. Os caramujos do Bairro Nova Brasília, por exemplo, já renderam mais reportagens na TV que o canil ou qualquer outro problema de Imbituba. Por algum motivo, o molusco parece incomodar mais que a prisão dos cães. O caracol gosmento que alguns contrabandistas tentaram fazer passar por scargot, pode transmitir vermes e causar doenças.
Pela quantidade de esforços, pensei que já houvesse muitos casos de contaminação.
Mas, não houve nem um único caso para dramatizar a cena que a equipe de TV, já sem novidades, busca. Porque então tanta preocupação?
- São medidas preventivas de saúde pública – responde Sandra.
Cães e gatos nunca foram alvos de medidas preventivas em nenhum grau. Como eles não são caramujos, não podem ser mortos por prevenção. Ainda bem. O que diferencia o projeto de Imbituba e o de outras cidades é que a eutanásia não é aplicada em animais saudáveis como forma de controle populacional. A Lei Municipal garante isso. Os cães e gatos recolhidos ficam no abrigo até que sejam adotados.
O próximo da lista é o mosquito da dengue, que nem mesmo chega vivo a Santa Catarina. Fico esperando a vez dos cães e gatos.
quarta-feira, 9 de julho de 2008
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1 comentários:
Fico muito decepcionada com a falta de responsabilidade, de seriedade e de respeito que atualmente observamos nas pessoas. Em uma época como essa onde as informações chega com mais rapidez, observo que em um ramo como o de vocês ainda anda em passos lentos. Fiz uma introdução para informar-lhes às últimas noticias sobre o CANIL. Qual a intenção que existe por trás dessas informações maldosas, é difícil saber, mas devemos em nome da verdade, explicar mais uma vez as pessoas que desconhecem as informações que o Veterinário Édio disse na ocasião em que foi pedido para falar sobre o projeto sem saber que havia má intenção das pessoas que lhes perguntavam.Todo projeto tem uma parte teórica e uma parte prática e foi justamente esta parte pratica onde se observou como funciona de fato um projeto como esse. Começamos com intuito de fazer o melhor pelos cães e pela cidade, mas logo percebemos que estávamos diante de algo muito grande e que exigiria de nós mais atenção e modificações para atender de fato as necessidades que surgiam, não pensamos em fatores que a prática nos levou a conhecer, mas não fomos irresponsáveis, com todo esse conhecimento que adquirimos nessa área, começamos a pensar como melhorar de fato, modificamos toda a estrutura do canil, que poderá ser confirmada com a visitação, já que o canil é aberto ao público e poderá confirmar nossas informações. Isso mostra que essas pessoas que tentam denegrir nossa imagem estão mal informadas. Partimos também para a segunda parte do projeto que é fazer as castrações nas comunidades carentes e após devolvemos para seus donos. Estamos concluindo o bairro Aguada e iremos para outras comunidades, já que as castrações são e sempre foram nossas metas principais, tanto é que em menos de dois anos já ultrapassamos de quinhentas castrações. Trabalhamos nesse ramo a mais de vinte anos e as pessoas que falaram neste site em nosso nome, não nos conhecem, não dizem a verdade, distorcem as informações e não são da nossa comunidade e de nossa cidade. Iremos enviar as fotos do canil para que os responsáveis por este site as publiquem e dê oportunidade das pessoas conhecerem a verdade. Tudo o que foi feito no canil está registrada e é feito um relatório mensal e enviado para as autoridades do Município. Podemos informar também que os cães recolhidos são castrados, medicados quando necessário, antes da doação. Infelizmente vivemos em um país que achamos que podemos falar sem conhecimento e muitas vezes achamos que sabemos, mas os que nos dá direito de falar com responsabilidade, duas coisas são importantes: a educação porque nos permitem o respeito pelo próximo e o conhecimento científico que nos dá a condição de falar do que conhecemos e isso fica claro que falta para essas pessoas. Portanto encerro essa resposta dizendo que é uma pena que ainda diante de tantas informações e conhecimentos existem pessoas que preferem denegrir o trabalho dos outros, a informar seu próprio trabalho, se é que existe. Responsável CANIL
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