quarta-feira, 9 de julho de 2008

Os gatos do andar de cima

Todos os cães que estão no abrigo foram abandonados. Alguns pelos próprios donos que aproveitam quando não tem ninguém no abrigo e amarram os cães do lado de fora. Um desses enjeitados descansa amarrado a um gancho na parte da frente do abrigo. Foi abandonado com a pata traseira quebrada e muito desnutrido. A pata está se recuperando, mas a magreza ainda demora.

Um cãozinho triste está separado dos outros em um cercadinho. Apanhou numa briga. Ele ainda tem de aprender a se defender na prisão.

Um miado vindo de uma das entradas parece destoar do ambiente predominantemente canino: um gatinho pardo vem entrando por uma porta lateral.

- Esse aí fugiu e agora ninguém mais pega. Ele aparece quando está com fome.
Arisco, o gato observa o movimento de longe.

No segundo andar fica o gatil. São seis gatos presos em um antigo banheiro com os mictórios ainda na parede. Dentro dos boxes estão os dois mais ariscos deitados em meio às fezes e urina misturados na areia espalhada pelo chão. Gatos são bichos muito higiênicos, aprendem sozinhos a usar a caixinha de areia. Normalmente não deitam na areia que usam para fazer cocô. Mas no lugar não há outro lugar para deitar além do piso frio de cerâmica. A areia é trocada a cada 15 dias. Não chega a ter mau cheiro, mas um cocô feito fora da areia denuncia que nem os gatos consideram mais a areia apropriada para isso. Além disso o contato com as fezes de outros animais, pode transmitir doenças, como a toxoplasmose, e verminoses.

Um dos gatinhos deitados tem o olhar apático e fixo. Não esboça qualquer reação diante das visitas. Ele é preto, do tipo que não se doa em véspera de sexta-feira treze. Certa vez ouvi de um protetor de animais:

- Quando chega perto desses dias, os gatos pretos ficam indisponíveis para adoção porque as pessoas pegam pra fazer despacho na encruzilhada. Matam mesmo, é uma maldade.
Denúncias de rituais macabros com gatos são uma constante na vida de protetores.
Um gatinho branco passeia estressado na parte de cima dos boxes, onde fica a janela, procurando uma fresta para fugir.

Na saída, temos que esperar o tratador espantar os dois mais desesperados para fugir. Um deles se agarra à tela feito um macaco. O tratador não tem luvas apropriadas para cuidar de gatos, só com um pedaço de cano ele consegue minimizar o risco da fuga dos dois felinos.
O gatil é um retrato do improviso do abrigo.

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