quarta-feira, 9 de julho de 2008

Sempre a mesma pergunta

- Porque ao invés de cuidar de cachorro, você não vai cuidar de criança abandonada?
O protetor de animais que nunca ouviu essa crítica atire o primeiro biscoito canino. E não só uma, mas várias vezes de gente de tudo que é tipo, origem, nível escolar e econômico. Os mais inexperientes talvez se percam em suas palavras, mas a observação revela o óbvio: quem faz esse tipo de indagação nunca atuou em causa nenhuma, seja em favor de crianças carentes, seja pelos animais. Isso se revela na ignorância total do assunto.
- Não é que eu ache que sofrimento de animal não valha a pena, a
solidariedade, o dinheiro.  Mas eu preferia que tudo isso fosse gasto com eles depois de não haver mais crianças pedindo esmolas, adultos famintos, famílias morando embaixo de pontes e adolescentes morrendo drogados nas calçadas

Esse é o primeiro parágrafo de um artigo da escritora Lya Luft publicado na Revista Veja em 25 de agosto de 2004. Ele reproduz a opinião de muitas pessoas que ignoram a realidade que cerca a causa animal e a situação das crianças no Brasil.
Se existe alguma comparação a ser feita entre crianças e animais, ela começa por uma denominação legal: incapaz. Nessa palavra está transcrita a situação das crianças, que dependem de outras pessoas para sobreviver, sua família ou, na ausência desta, o Estado. Os animais domésticos também se encaixam na categoria de incapazes. Pois não podem se cuidar sozinhos, uma vez que não são silvestres, e dependem de humanos para se manterem vivos. E na ausência de humanos para cuidar deles, há o Estado. É o que está escrito no artigo 1º do Decreto-lei nº 24645, de 10 de julho de 1934: Todos os animais existentes no País são tutelados do Estado.
O artigo 3° continua: Os animais serão assistidos em juízo pelos representantes do Ministério Público, seus substitutos legais e pelos membros das sociedades protetoras de animais.
Crianças também são assistidas pelo Estado através do Conselho Tutelar. A função do Conselho é zelar pelo cumprimento do Estatuto da Criança e do Adolescente. Mas, antes de tudo, a família é quem detêm o direito e o dever de cuidar de suas crianças. Portanto, não se recolhe crianças na rua como quem recolhe cães, pois isso não é permitido, pode ser considerado aliciamento ou seqüestro.
Também há uma tentativa na crítica de se romantizar as crianças de rua. Primeiro, que elas não são tão indefesas quanto se imagina. Indefesas mesmo ficam quando sua própria família lhe oferece risco. E aí, ao contrário do que acontece na causa animal, o Estado intervém e a leva para morar em um local seguro. Mas, as crianças que se vê nas ruas das grandes cidades não, elas geralmente andam em grupos, para se protegerem. Também tem família, mãe e pai, ou um dos dois que nem sempre sabem que a criança sai para esmolar. Também acontece de os próprios pais mandarem seu rebento para a rua pedir esmola ou vender bugigangas. Tente abordar uma dessas crianças com uma proposta de ‘cuidá-la’. Tente e saia correndo, pois podem aparecer seus reais protetores que não vão gostar da história. Fora que muitas delas fogem do Conselho Tutelar, pois preferem viver na rua.
Mas isso só acontece em grandes cidades, não em Imbituba e seus 32 mil habitantes. Aqui, só aparecem pedintes quando eles vêm de outras cidades em grupos de ciganos ou índios.
Mesmo assim, tem gente que ainda faz a mesma pergunta.
Há outros intelectuais que comparam animais e crianças, mas de outra forma. Foi o que fez Danuza Leão em um artigo publicado em sete de setembro de 2003 na Folha de S. Paulo, quando descobriu a importância de esterilizar seus gatos.

- É por amor, por muito amor -e consciência- que é preferível que nasçam menos gatos, já que não existem lares suficientes para adotá-los. Foi impossível não fazer um paralelo com a infinidade de crianças abandonadas nos sinais de trânsito e nas Febens da vida, sem ter quem cuide delas e a cada ano nascendo mais e mais, algumas de mães de 13, 15 anos, sobretudo no Nordeste, terra do presidente Lula, que conhece o problema melhor do que qualquer um de nós. Conhece, mas não fala no assunto; nem ele nem uma só pessoa do governo. Por que será?

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